A Peneira e a Borboleta

Por José Humberto da Silva Henriques

Sobre o livro

N

um momento como esse, falar da obra de Humberto Henriques torna-se uma tarefa cheia de percalços. Esse livro, Le Tamis et le Papillon, um experimento em língua francesa, traduz toda a grande capacidade do escritor de ir em busca de uma poesia que seja perfeita.

Essa busca constante do poeta por esse ofício, a produzir poemas em sete línguas diferentes, tudo no formato original da criação, aufere ao poeta a especificidade de um estudioso da formação do verbo e do substantivo.

Portanto, segundo pensamos, donos da tarefa de fazer a apresentação desses compêndios todos, cremos que a ousadia é tarefa mais firme que a simples forma de um desafio perene. O francês sempre foi para Henriques uma língua matriarcal.

Ele confessa que não é lá muito fácil se fazer um poema diante dessas exigências todas que são intrínsecas ao idioma. Conforme ele mesmo diz, um dicionário não substitui jamais a concepção dos arquétipos.

Portanto, ele não os usa no momento em que a criação se estampa em seus ritmos de elaborar a estética, assim conforme ela exige e se densifica com a eclosão das palavras. Volta à cena a complexidade nada fácil de ser explicada desse autor que faz da Literatura um modo de vida.

Henriques passou a vida inteira a se dedicar a esse mister. Versado em Artes Plásticas, em Filosofia e em Línguas Estrangeiras, busca sempre nesse corporativismo de junções de alma a sua maior fragrância possível.

Isso teve começo nos idos tempos em que ele tinha seus dez, onze, quem sabe doze anos de idade, quando enfiou a cara na Biblioteca José de Alencar, lá do Colégio Marista Diocesano de Uberaba. Isso aconteceu por volta de 1970. Era uma biblioteca grandalhona.

Com muitos corredores cheios de pó e muitos livros espalhado por ali. A grande maioria em latim, grego e francês. Em outras línguas. Nesses dias, o interesse do menino se voltou para os clássicos e muitos não podiam ser lidos no original.

Isso foi uma palavra de desafio e Henriques passou a buscar, a partir de então, a alforria de seus mais estáticos sentimentos. De como um menino troca a bola por um livro, isso é coisa que não se pode explicar. Henriques era bom de bola. Diz o dito popular. Todos da sala reconheciam isso.

Quando digo da sala, estou a falar da sala de aula. Havia uns alunos muito estranhos, ele conta, naqueles dias. Uns garotos que eram a própria inteligência personificada, como era o caso do Tomás Bawden. Esse era hors-concours. Vai ser inteligente assim lá nas pedras de fogo.

Assim nos conta Henriques com seu fôlego de alguma maneira histriônica. Meninos muito diferenciados. Uns que já vieram ao mundo na sabedoria de coisas inenarráveis. Daqueles que fazem orgulho e luxúria dos próprios pais. Esses meninos, todos eles, não gostavam muito de uma bola de futebol.

Henriques era apreciador e não havia um único dia que não estivesse nos campeonatos de futebol. A troca que fez pelos livros era um intermediário apenas. Não podia se conceber sem a bola, entretanto, sem os livros também não.

Ele conta que, desses alunos hiperinteligentes, todos seguiram seus destinos e foram muito bem sucedidos como grandes profissionais liberais. Ele virou escritor. O único que seguiu a senda das artes plásticas. Henriques sempre repete essas situações de um tempo antigo.

Mesmo aqueles que queriam desenvolver uma atividade lúdica ou artística, todos eles se perderam ao longo dos desvios. Alguns gostavam de teatro e muitos se revelaram grandes artistas. Porém, em cidade do interior, isso acaba virando apenas um hobby.

Então, quando chegavam ao ponto de ter que trabalhar para sobreviver, os que eram de esquerda se encostavam para pensar em nada e comer bolachas Maria. Os que eram de direita iam-se em busca de uma existência digna. Henriques ficou sozinho nessa selva de grandes incógnitas.

Mas isso deve ser mesmo normal para esse mundo e a maneira de ele ser, um mundo consumista e alicerçado somente no preambulo

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