Sobre o livro
A Morena do Rio
Nas margens tranquilas do rio São Bento, onde as águas corriam mansas e refletiam o brilho do entardecer, vivia uma moça conhecida por todos como a Morena do Rio. Ninguém sabia ao certo seu nome — alguns diziam que era Rosa, outros juravam que se chamava Tereza. Mas, para o povo da vila, bastava chamá-la assim, pois seu rosto e seu canto já eram conhecidos de longe.
Todas as tardes, ela descia com seu balaio de roupas e seu lenço florido amarrado na cabeça. Lavava, enxaguava e, entre uma espuma e outra, deixava escapar canções antigas, daquelas que falam de amor, saudade e esperança. Os pescadores paravam os remos para ouvir, e até as garças pareciam se curvar diante daquela voz serena.
A Morena vivia com a mãe, uma mulher calejada pela vida, mas de coração terno. Desde menina, aprendeu que a vida, como o rio, segue seu curso — às vezes calma, às vezes revolta, mas sempre seguindo. Trabalhava com alegria, mesmo quando o sol castigava ou quando as enchentes levavam tudo o que tinham.
Certo dia, o destino trouxe um viajante àquelas bandas. Vinha de longe, com botas empoeiradas e olhar de quem já viu o mundo demais. Ao ouvir o canto vindo das margens, parou. Ficou ali, quieto, escutando, até que ela notou sua presença.
— Boa tarde, moça — disse ele, com um sorriso tímido. — Boa tarde, moço. Veio buscar roupa limpa ou ouvir moda velha? — respondeu ela, brincando.
E assim começaram os dias em que o rio foi testemunha de um amor nascente. Ele voltava sempre ao mesmo lugar, com desculpas diferentes: um peixe para oferecer, uma história para contar, um olhar que dizia mais do que qualquer palavra.
Com o tempo, o coração da Morena foi se abrindo, como flor depois da chuva. Mas o viajante, por natureza, não tinha pouso certo. Um dia, anunciou que precisava partir — o destino o chamava para outras estradas.
Na despedida, o sol se escondia atrás dos morros e o rio parecia chorar junto. — Eu volto — prometeu ele, segurando-lhe as mãos. Ela apenas sorriu. Sabia que há promessas que o vento leva, mas há amores que o tempo nunca apaga.
Os dias passaram, as estações mudaram, e o viajante não voltou. Ainda assim, todas as tardes, a Morena descia até o rio. Lavava as roupas, cantava suas canções e olhava o horizonte. O povo dizia que ela esperava. Mas, no fundo, ela apenas deixava o amor correr, como as águas que nunca param.
Hoje, quem passa por ali ainda ouve, ao longe, um canto doce se misturando ao som do rio. Dizem que é o espírito da Morena, cantando para lembrar que o amor verdadeiro não morre — ele apenas muda de lugar e segue o seu curso, como o rio que nunca deixa de correr.
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