A Máscara Trágica

Por Vitorino Farias

Sobre o livro

Máscara trágica é um daqueles romances que, começada a leitura, queremos logo devorá-lo por completo. A história se passa na charmosa urbe do “sertão”, na Terra de Iracema.

Tem como personagens centrais o Velho Thomaz, simpático, sábio e erudito, e Antônio, um garoto pobre que, aparentemente por generosidade de seu benfeitor, consegue concluir o ensino secundário e cursar direito na conceituada Faculdade de Direito de Recife, privilégio dos abastados e homens poderosos do período.

O enredo é tecido como quem entrelaça pacientemente os fios numa roca até compor a trama. O enredamento, isto é, o encadeamento das ações, está de tal forma emaranhado a ponto de os sentidos por trás dele nos causar emoções.

Como uma rede pacientemente urdida, nos prende, nos colhe num ardil ou armadilha de onde não é possível fugir. Há, no enredo, duas histórias entrelaçadas.

Uma, a mais significativa, aquela dos dramas vividos por Antônio e o Velho Thomaz, a outra, eivada de suspense, fala do mistério da morte de Badaró, melhor amigo de Antônio. Quem o matou e por quê?

A segunda história parece apenas mascarar aquilo que é mais importante: as vidas trágicas do Velho e de seu pupilo, dignas da tragédia clássica.

O que mais nos causa comoção são as voltas e reviravoltas constantes: quando as coisas parecem se encaminhar para um final desejado, isto é, quando a felicidade parece tomar conta dos personagens, o infortúnio os atinge de forma implacável.

Nesse ponto, a trama deve muito à tragédia grega, sobretudo a Sófocles. O dramaturgo grego partia da perspectiva de que é exatamente no momento de plenitude, sempre fugaz, passageiro, efêmero, que a flecha envenenada nos é atirada.

Os personagens sofoclianos, diante do infortúnio, têm de encontrar uma solução honrosa.

É assim que Antônio, uma espécie de herói trágico moderno, entre decidir-se pelo Héracles euripidiane — que enfrenta os deuses, foge da convenção, encara a necessidade, a fortuna (Tyche), sobrevive pela virtude do amor, amizade (Philia), e, assim, reconhece sua humanidade — e o Héracles sofocliano — que antecipa o fim de sua dor, muitas vezes ante o ódio — o rapaz fica com a tradição.

Era, para ele, a única saída condizente com a sua formação trágica e heroica: entre subverter a ordem e ser fiel ao convencional, não teve dúvidas.

Antônio é aquele que transita por dois mundos: se aproxima daqueles que se sociabilizam no Grêmio, clube nobiliárquico, por sua formação e pela figura do Velho Thomaz, e daqueles outros, das pessoas comuns, ordinárias, por sua origem humilde. Há aí um contraponto entre o Grêmio e o Cabaré.

É pelo contraste entre os frequentadores do “submundo” e aqueles da sociedade “aristocrática” que se revela como a ideia de nobreza não passa de uma construção da linguagem, estratégia de imposição de respeito e poder, bastante exitosa, e que a honra nada tem a ver com fidalguia, origem, linhagem.

Ela não está no corpo, mas no coração: não é exterior, mas emana do âmago. Antônio só compreende isso quando percebe que o mundo dominado pelo escol social se impõe de maneira implacável, determinado o “destino” das pessoas humildes.

A sina de sua mãe, da sua amada, e mesmo da apaixonante Creuza, são “condicionadas” por suas “desonras” cometidas justamente por aqueles que se autodeclaram honrados. Paradoxalmente, compreende: os considerados desonrados são mais dignos de respeito.

Finalmente, o Velho Thomaz, personagem singular, contraditório, como somos todos nós, parece ter organizado as leituras que faria com o seu pupilo de forma a prepará-lo para enfrentar a sua maior dor, mas acabou, pelo contrário, levando-o a decidir-se por outro caminho, aproximando-o dos grandes heróis da tragédia épica.

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