A Invenção de Santa Cruz

Por Pawlo Cidade

Sobre o livro

Às vésperas de completar 500 anos, Santa Cruz, a cidade que ainda insiste em ser chamada de povoado, vive dias de calamidade e corrupção: seca, pestes e eleições.

Habitada por personagens que parecem ter saído do Auto da Barca do Inferno, cada um com sua iniquidade e sua alegação, em seu jeito e trejeito, em sua cor e costume, sem tirar nem pôr, moradores de um povoado que um dia o mar haveria de engolir.

Mas até lá — repetia Mariazinha Linguado — a gente vira peixe!

E quem disse que seu povo está preocupado com lendas e histórias? Qualquer coisa é motivo de comemoração, de despir o luto. Abaixo a tristeza! Não tem acontecimento, causo, aniversário, batizado ou chegança em que o povo não caia na gandaia. Inclusive para festejar as intempéries da vida. Santa Cruz enfrentava os momentos desfavoráveis e as desgraças com alegria. Não tinha infortúnio certo.

No povoado onde peixe tem nome de homem e homem tem nome de peixe, repleto de indivíduos de alta estirpe, que dizem possuir valores firmados na verdade, personalidade, hospitalidade e autenticidade — Senhor, tende piedade deles!

—, paradoxalmente, o absurdo se faz cotidiano quando alguém é capaz de gastar dois reais apenas para evitar que o outro ganhe um. É o local onde nem todo filho de peixe, peixinho é, onde as lições de hereditariedade não se aplicam à índole e ao caráter.

Nesse espaço ímpar, descobrimos que as más influências estão por toda parte, quase palpáveis, como o odor forte do mercado de peixe da Central de Abastecimento, ao qual, inacreditavelmente, todos vão se acostumando. É o ar que respiramos, uma realidade que imperceptivelmente se entranha na gente.

E é no seio desse povoado, que cada um de nós acaba por se tornar o “peixe” de alguém, numa teia de interdependências e influências mútuas, onde cada ação e decisão reverbera através do coletivo.

Às vezes somos a presa, em outros momentos, somos o predador, mas sempre fazemos parte desse ecossistema humano carregado de contradições e encantos. Aqui, no povoado dos absurdos, cada dia é uma nova revelação de que a humanidade é feita de nuances e a vida é o maior milagre de todos.

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