Sobre o livro
A obra A flor que não me deste trata-se de um romance de magnitude ímpar. Ora denso, ora marcado por um humor ácido, temos como base principal a internação do protagonista (não nomeado) numa clínica psiquiátrica, por motivos inicialmente desconhecidos.
Divido em três partes, o livro intercala as vivências institucionais com recordações de momentos traumáticos, que envolvem, principalmente, a presença de um pai austero e violento.
Desta forma, nos confrontamos com a adaptação do personagem na clínica, a qual impõe regras rígidas, assim como apresenta condutas questionáveis, ao mesmo tempo em que adentramos nas suas lembranças de infância, o desencontro de línguas com este pai, severo e conservador, bem como o curioso flerte com a morte que se manifesta em seu imaginário desde cedo.
Descrita de forma potente, poética e, por vezes, cômica, nos é revelada a relação do protagonista com a anorexia e bulimia no início da vida adulta, sendo este apenas o ponto de partida para uma enxurrada de recordações de episódios marcados por descobertas, intolerâncias, violências extremas, relacionamentos tóxicos e demais infortúnios que acabam por culminar num ciclo de autodestruição.
Permanecemos acompanhando, em paralelo, os acontecimentos internos da clínica (temos acesso às mais diversas histórias de vida dos demais internos e os motivos por estarem ali) e notamos fatores nocivos presentes no cotidiano, como práticas pautadas na agressividade e negligência, o que leva a uma reflexão que coloca em paralelo a violência institucional com a violência doméstica, ambas experienciadas pelo narrador.
Entre relatos e recordações, a figura paterna opera quase que de forma fantasmagórica, e se faz presente nas entrelinhas de cada página, por meio da potência com que é reproduzida sua personalidade autoritária e intransigente, ainda que desde o início se possa notar os sacrifícios realizados pelo protagonista, visando uma possível aproximação, um reconhecimento, um olhar sequer.
Numa linguagem dilacerante e arrebatadora, por vezes irônica e sagaz, transitando entre autores como Tati Bernardi e Édouard Louis, o livro proporciona momentos de intensa identificação, entre angústias, horror, humor, lágrimas e risadas nervosas.
Recheada em cada capítulo por questões existenciais, problemáticas familiares, intolerância e preconceito nas suas mais diversas manifestações, sofrimentos intensos e obsessões, investigações acerca do psiquismo humano, a obra A flor que não me deste se apresenta, mais do que nunca, como uma leitura urgente e necessária.
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