Volatilização e/ou centralização: Em torno dos (auto)retratos de Manet e Degas (YMAGO ensaios breves)

Por Victor I. Stoichita

Sobre o livro

No final do século XIX, Manet e Degas perfazem duas posições inconciliáveis relativamente à arte «moderna». A admiração recíproca, a rivalidade e o confronto de temperamentos permitem, justamente, revelar um diálogo complexo e contraditório sobre a obra pictórica de ambos.Neste ensaio de V. I.

Stoichita, a análise comparada dos auto-retratos e o estudo de outras obras significativas dos dois artistas, conduz-nos ao entendimento de duas distintas retóricas figurativas e dois modos divergentes de pensar e fazer a pintura.

O acto de retratar e pintar pressupõe não só diferentes referências históricas e artísticas como duas contrastantes concepções visuais e críticas.

A relação do pintor consigo mesmo e com o espectador, obedece a dispositivos de figuração onde, distintamente, a presença subjectiva e autoral se auto-confronta ou, por outro lado, se esquiva e ausenta.Assim, o carácter privado e auto-denotativo de Manet, onde predomina o reflexo do espelho, e a realidade do quadro enquanto construção e relação com o outro, contrasta com o sentido exotópico de Degas onde a evidência da instância autoral permanece «escondida».

Em Manet existe uma integração consumada do autor na pintura, através de estratégias «paratextuais» que incluem a figura e o nome do próprio artista; em Degas, o pintor vê sem ser visto, desimplicando-se do espaço de representação, para se desvanecer como um «fantasma».

Contrariamente à predilecção frontal e dinâmica de Manet, que visa o olhar do outro, a «centralidade do Eu», Degas prefere a vista lateral e a subtil transversalidade do observador: esta é a posição do voyeur, a do «observador não observado» que permanece no «umbral», jamais figurado e dentro da imagem.

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