Sobre o livro
A introdução de todos os contos de Viola de Caco de Cuia, sem exceção, habilita-se num desenho inigualável da alma humana. Depois, tudo desanda para uma ocorrência com a aparência de eternidade que prende o leitor e não o deixa desfazer-se da leitura.
De repente, o humor explode, refinado, sensual, telúrico. E depois ainda, o que demonstra a qualidade de refinamento desses contos, o fechamento com a surpresa e com a poesia condensada que emana desse verdadeiro, quiçá um dos maiores, grande criador da Literatura Brasileira contemporânea.
(Branca Maria de Paula)
Estas violas de caco de cuia eram brinquedo sem refinamento algum que as crianças do interior do Brasil – leia-se Minas Gerais – usavam oara suas atividades lúdicas.
Como diz mesmo o nome, a viola era feita com um pedaço de cuia cortado ou apenas quebrado, o que devia dar os contornos ásperos do instrumento. As cordas eram feitas com gomas finas. A mais utilizada era aquela goma fina que havia nas botinas mateiras, as que faziam o fole do calçado.
A meninada roubava as tranças finas das gomas, destruíam as botinas, deixavam a coisa absolutamente relaxada, com a finalidade de obter as cordas. E o som que aquilo podia deixar nos ares era absurdamente monocórdico.
Mas era um brinquedo bom e criativo, mormente quando as cordas eram encastoadas por um adulto que sabia bem prender na cuia as suas extremidades. Era um brinquedo que durava pouco porque a cuia estava sempre sujeita a se quebrar e as gomas não suportavam muitos acordes. Dava para passar o tempo e enfeitar parte do dia sem tecnologia avançada.
Então, é a partir desse instrumento rudimentar que o autor faz a memória vir à tona e enfia num de seus livros esse título. Viola de Caco de Cuia.
Não obstante esses pequenos gargarejos de detalhes, explicação para quem não teve e nunca vai ter intimidade com tal banalidade, o título vem muito a propósito porque é capaz de cursar com a grande semiologia de um mundo arquetípico.
Nem tanto tempo assim e a palavra viola de caco de cuia já soa estranha e estereotipada. Num tempo como o de hoje, com as lojas de brinquedos a vender tudo quanto é tipo de traquitana de acrílico movido a pilha, esse brinquedo deixa de ser palavra para se tornar expressão estereotipada.
Quase irreconhecível.
JH Henriques traduz muitos desses estereótipos em seus livros. A sua preferência por títulos assim é capaz de suscitar a grande apreensão e curiosidade de qualquer leitor.
Quem se interessa por literatura de qualidade certamente vai se deparar com um título desses e vai requerer dele algum conhecimento. Aqui, nesse caso específico, porém, a viola não entra em nenhum dos contos, muito menos a de caco de cuia.
Da mesma maneira que Cavaco de Costela, outro livro de contos de Henriques, o primeiro que foi publicado no gênero, não guarda relação entre texto e título. É como se fosse uma chamada aberta para a apresentação de um mundo que vai se revelar por outras vias.
Esses contos do livro Viola de Caco de Cuia são emblemáticos. A maioria deles foi detentora de prêmios literários imponentes. Alguns mesmo foram publicados de maneira solo. Como é o caso de A Causa de Divinha Rapa de Tacho e O Grilo e a Canga.
Porém, o livro foi mantido na sua integridade e deve ser, de fato, um dos livros de contos mais representativos de toda a literatura brasileira.
Quando Branca Maria de Paula – Belo Horizonte – Minas Gerais – revelou no prefácio da primeira edição do livro a sua interpretação, fê-lo com grande propriedade. Os contos são assim mesmo, densos e complexos, capazes de expor chagas irrisórias da alma humana, daquelas terríveis.
Irrisórias a princípio e que se tornam terríveis à medida que demonstram que uma coisa anterior se liga a um futuro cheio de perplexidades e que conduz a um liame delicado de fragilidade ou vigor de seus personagens. Aqui a loucura caminha livre, misturada com o encanto que costuma ser comum dentro dos olhos de quem enxerga a vida pela diversidade dos ângulos.
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