Sobre o livro
VEREDAS
No final dos anos trinta, Veredas era um lugarejo encravado no Vale Verde — divisa entre o nordeste de Minas Gerais e o extremo sul da Bahia —, separado pelas intrigas entre duas famílias: ‘Bonfim’ e ‘Teixeira’, e uma ponte sobre o Rio Grande, um rio rico em peixes que percorria todo o Vale, em direção ao mar.
Do lado sul do rio e centro do lugarejo ― morava o Tonho Bonfim, que chegou ao Vale no final da segunda década do século XX, vindo de uma região entre Paramirim e Érico Cardoso ― antiga Água Quente, na Chapada Diamantina, Estado da Bahia.
Já o Coronel Placidino Teixeira instalou-se no Vale Verde no início dos anos trinta, vindo provavelmente de Medina ― uma cidade do Baixo Jequitinhonha. Chegando ali, ocupou o lado norte da margem do Rio Grande.
Logo após sua chegada, mandou construir uma ponte de madeira, a fim de facilitar o acesso ao vilarejo. A história de Veredas se confunde com a chegada desses arqui-inimigos que, se odiavam até o âmago da alma. Nos encontros casuais, o Sr.
Tonho Bonfim comentava ter mais direitos às terras do Vale do que o Coronel Placidino. Dizia ele ter chegado ao Vale Verde com a esposa Ana Mendonça Bonfim e dois filhos, na década de vinte, montados nos lombos de burros seguidos por animais de carga e três ajudantes.
Afirmava ainda, ter sido o primeiro a abrir picadas dentro das matas a fim de encurtar as distâncias e, que as primeiras clareiras foram abertas com facões, machados, foices e enxadas por ele e aqueles que o acompanhavam.
Com as clareiras abertas, os ranchos foram construídos, e as primeiras roças de milho, feijão, arroz, mandioca, cana-de-açúcar e árvores frutíferas foram plantadas.
Com o passar do tempo, novas derrubadas foram feitas e consequentemente, as clareiras foram aumentadas, como também aumentaram a área de seu domínio.
Então, após isso e outras coisas mais, o capim colonião foi plantado devido ao cansaço do solo pelas culturas sucessivas, formando assim as pastagens para o gado zebu. Estava aí a conquista da terra devoluta do governo, com posses do Sr. Tonho Bonfim. E o Sr.
Tonho Bonfim provava por a + b que tinha todo direito às terras, pois até o nome Veredas foi dado por ele. E, no dia a dia, perguntas eram frequentes, como: — Seu Tonho Bonfim, por que o nome Veredas?!
Este tipo de pergunta era comum por aqueles que num papo casual, encontrava-o pela primeira vez.
E ele: Um homem sensato, tranquilo e reto na atitude dizia:
“ — Saindo da minha terra natal, uma região entre Água Quente e Paramirim, no Centro-Sul Baiano, na Chapada Diamantina—, viajei com minha mulher Ana, dois filhos e três ajudantes, em lombos de burros e mulas, à procura da “mata” ― uma região bem conhecida por aqueles que sonhavam em aventurar-se.E, numa manhã calorenta de janeiro, subi numa colina e vi à distância um Vale com belas planícies, montanhas e serras contornando o horizonte.
Observando dali, com mais atenção, vi morros encobertos por uma vegetação verde, e descobri um longo e volumoso rio que corria em direção ao nascer do sol. Não aguentei a espera, então, adentrei ao Vale. Primeiramente, fui de encontro ao rio.
Ao andar na margem do lado direito, pelo volume de água e largura, já o chamei de Rio Grande. E continuei todo maravilhado com o que havia encontrado. Ana e os ajudantes, é claro, me acompanhavam observando tudo, atentamente.
Então, percorremos a margem do rio e encontramos brejos, terras humosas, alagadiços e uma vegetação rasteira com atalhos fáceis para andar. Para festejar aquele achado — pegamos facões, machados, foices e enxadas, e então abrimos a primeira clareira. Aí disse, olhando para o céu: “— Deus!
Aqui é Veredas, a minha nova Terra.” — Esta sempre foi e será a minha história…
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