Várzea Saudosa: O desaparecimento do futebol de várzea em São Paulo

Por Caio Araujo

Sobre o livro

Quando muito se exige esforço e dedicação de um jogador de futebol, percebe-se a que nível o profissionalismo alcançou nos campeonatos globais.

A cobrança se explica, em parte, pelo alto rendimento auferido pelos atletas, que correspondem na verdade a ínfima minoria dos que se destacam na fábrica de ilusões que é a regra no futebol mundial.

Os holofotes mexem com o imaginário dos fãs que sonharam um dia estar no lugar dos seus ídolos ou ao lado deles. O glamour é legítimo e compreensível. Os torneios que reúnem os grandes craques são mesmo emocionantes. A magia da Copa doMundo continua viva, como pudemos presenciar há exatos dois anos.

Por outro lado, o futebol não se reduz aos espetáculos televisivos, ao estilo de vida badalado dos protagonistas ou às arenas modernas destinadas a um público já não tão diverso.

Enquanto brincadeira que é, e sempre será, ele preenche o tempo do trabalhador fora da fábrica, promove encontros casuais na rua e discussões acaloradas nos bares, que perdura ao longo da semana sem resposta até que uma nova polêmica surja como pretexto para as pessoas iniciarem um bate papo interminável.

É esporte, ritual e fato social. Atenua e radicaliza divergências. Interrompe conflitos, enquanto outros se estremecem por sua causa. Faz inimigos apertarem às mãos e vizinhos se confrontarem; estranhos se abraçarem e paixões terminarem; adultos sorrirem e crianças chorarem.

Dentre todas as suas características, são essas ambiguidades que o tornam especial, e foram elas que me levaram a desenvolver esta pesquisa.

Curioso o processo de como um hobby elitista cai no gosto do povo e por que este povo insiste em amá-lo apesar das espúrias regras do jogo. Entre glórias passadas e fracassos presentes, este jogo permanece, não imutável, no cotidiano do brasileiro.

E em São Paulo, especificamente, há um lugar onde ele luta para sobrevive contra a lógica do crescimento urbano desenfreado – o mesmo lugar onde o menino descalço o reinventou: a várzea. É sobre a dinâmica entre lazer, moradia, hábito arraigado e disputa geográfica que este livro trata.

Desde a sua origem, desenvolvimento e aceitação, tentaremos explicar porque uma prática consagrada tem perdido espaço e corre o risco desaparecer na cidade.

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