Sobre o livro
Um soco na nuca do Buda Reli os contos do Luiz Miller pra escrever essa apresentação.
Li de um folego só, sem pausa pra anotações ou marcações no texto pra depois encontrar aquela frase super descolada e fazer uma análise intersemiótica (seria um desserviço pro autor, quem sabe até motivo pra eu levar umas porradas no futuro).
São contos que eu li ao longo dos anos, conforme iam sendo produzidos. A primeira coisa que me espantou foi o quanto eu me lembrava de cada um deles.
Muitos dos detalhes ainda estavam perfeitamente vívidos na minha memória: o nome do labrador, o destino de uma personagem, o trecho igualmente hilário e deprimente de alguma história.
Acredito que se um pouco desses rapazes talentosíssimos que imitam o Bukowsky parassem de blogar e fossem pra rua de vez em quando, o resultado seria esse livro.
O fato é que eles não vão parar nem de blogar nem de imitar o velho Buk, e por isso mesmo dou graças a Deus pelo Luiz Miller e seu humor ranzinza, seu humanismo as avessas, suas personagens propositadamente caricatas.
Nos contos de “Valsa Em Oito Atos Para Vagabundos”, o verossímil e o inverossímil se misturam, fazendo uma suruba com chineses mafiosos, entidades metafísicas, garrafas de vodca e aposentados tarados.
É como um filme de kung-fu escrito pelo Nelson Rodrigues, ou uma porno chanchada sem a trilha sonora ruim. Aliás, taí um ponto de ligação entre todos os contos: a música permeia cada história.
Desde a bossa-nova que embala o choro no chuveiro de uma personagem supostamente durona até o Led Zeppelin que é maldição e alento pra um romance fadado ao fracasso. Talvez por isso mesmo o título do livro não poderia escapar desse “valsa”.
Quanto aos fracassos (tanto dos romances como das aspirações de cada personagem, todas sempre engendrando a própria destruição), reside neles a maior qualidade dos contos.
Ao invés do niilismo já esperado da literatura contemporânea, os contos do Luiz Miller procuram instituir uma salvação através do ódio.
Embora seus protagonistas sejam sempre seres quebrados, inadequados, em caminho certo para a loucura ou o suicídio, há um facho de esperança exatamente nesse amor pela autodestruição.
Parece que entendendo o quão falhos e incapazes eles mesmos são, esses anti-heróis constroem para si uma piedade inaudita – é vendo a si mesmos como estorvos que eles encontram tolerância e amor para com a fraqueza dos outros.
É pungente a cena do brutamontes que perdoa o velho tarado, ou do homem incapaz de amar a parceira que se enche de ternura pelo cachorro. Mas fique claro: essa ternura não impede o escritor de dar porrada pra todos os lados.
Quase nenhum dos tipos modernos escapa ileso: feministas, escritores, editores, socialites, artistas plásticos. Toda a fauna urbana entra no pau e o autor só exibe alguma contenção quando trata de moleques de rua, viúvas solitárias, donos de boteco pé-sujo, traficantes.
A afinação com a marginalidade, entretanto, não resvala nos clichês justificantes ou no endeusamento de ninguém.
Se há algo que o livro não faz, afirmo, é endeusar quem quer que seja (incluindo os próprios deuses, rebaixados a condição de picaretas falhos e idiossincráticos num dos pontos altos do livro).
Meu arremate não poderia ser diferente: leiam essa valsa em oito atos com algum sangue no olho, com uma música alta atrapalhando, com a TV da sala ligada.
Leiam sabendo que vão encontrar na gaveta, tal qual o narrador do meu conto favorito no livro: “Uma caneta, um porrete pequeno, um soco inglês, uma faca tipo butterfly, um 38 preto de cano curto e uma caixa de balas Taurus.” E também, o que é mais importante, um tanto de humanidade.
Juliano guerra, Canguçu – RS, Junho de 2013.
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