Sobre o livro
Um dos atributos mais importantes em obras de arte é sua força intrínseca, que prescinde de explicações, uma pujança inerente que envolve o leitor, o espectador, a pessoa que fica absorvida em frente a uma pintura, a uma escultura. E se há um predicado comum aos trinta e um contos deste Uma queda no ar, de Mariel Reis, é esse vigor em cada um deles, cada qual com seus próprios motores e sua própria forma.
Apropriando-se da mitologia grega, egípcia, hebraica, cristã, do universo borgeano, o autor conduz as histórias com uma palavra precisa e sem rodeios, sofisticada e ao mesmo tempo direta, construindo personagens que estão às voltas com seus labirintos internos. Diante deles, o absurdo e o real se entrelaçam sem fronteiras definidas entre si.
Dona Iolanda está intrigada pela misteriosa brisa que corre a casa aos sussurros, que parece vir do quarto de sua filha Mariana. O menino Shui gosta de remar em sua canoa na represa formada pelo rio Yang-Tsé. Leva sua namorada Hua para ver a abertura das comportas da hidroelétrica.
O pequeno barco é chacoalhado por algo incompreensível. Eliezer abre a porta, e um sujeito de terno claro começa a se desfazer em areia à sua frente. O menino está na delegacia, mas o que se espera de Davi não é que ele vença Golias?
O esperado e o inesperado, o que é determinado pelas circunstâncias ou está escrito num destino a ser cumprido é um conflito que comumente aflige os seres humanos. Mariel Reis não foge do confronto, tampouco pretende oferecer soluções fáceis nesta investigação da alma humana.
Afinal, o mergulhar na alma humana é outro dos atributos fundamentais das obras de arte.
Carlos Eduardo de Magalhães
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