Uma borboleta imitada

Por Filipe Chamy

Sobre o livro

“Uma borboleta imitada” é um romance sobre a juventude.

Leandra é uma jovem de incompletos quinze anos, que passa por um delicado momento em sua vida: a primeira semana numa escola completamente nova.

O que já seria complicado para virtualmente qualquer adolescente, para Leandra assume contornos especiais, pois ela é uma moça solitária, pensativa, introvertida.

É ela quem narra a história, utilizando para isso sua sensibilidade e sua capacidade de descrever vividamente detalhes, mesmo quando as situações não ocorreram exatamente como ela escreve — Leandra fantasia bastante as reações e motivações das pessoas que conhece, e boa parte de seu relato se baseia em interações imaginadas, tentativas sutis de aproximação por meio de uma decodificação dos sentimentos alheios.

A adolescente fala de suas relações com a família — os pais, os tios, o avô, a prima —, suas decepções com o sistema educacional ao qual é submetida, seu desencaixe com as outras meninas suas colegas, seu desânimo com o cotidiano repleto de afazeres (balé, natação, curso de línguas etc.), seus sonhos, seus medos, suas idiossincrasias.

Leandra conta suas experiências, ordenando os capítulos em forma de dias da última semana (a primeira na nova escola), alargando a cor narrativa ao misturar os tempos, confundir imagens, interiorizar conflitos.

Leandra não revela o nome de nenhum outro personagem, e não sabemos deles mais do que as informações fragmentadas que ela passa acerca de suas vidas e ações. Os únicos diálogos diretos do livro são dela, por memória ou intenção.

É preciso dar voz aos jovens para que eles comuniquem suas aflições, suas conquistas e suas dúvidas. “Uma borboleta imitada” supre parte da carência em que se encontram os relatos sobre jovens nas letras brasileiras, demasiadamente estigmatizados e eivados de uma percepção repleta de lugares-comuns e incompreensões, um olhar ‘de cima para baixo’ que contamina com sua falsa superioridade a completa expressão da adolescência.

Que ninguém se engane e considere Leandra uma heroína ‘teen’, nos moldes pasteurizados de uma narrativa que é conivente com o sistema que proporciona a seus jovens todos os problemas de que se queixam; “Uma borboleta imitada” vai seguramente na contramão das convenções estilísticas que reduzem as figuras humanas a arquétipos de tendenciosas projeções sociais.

Também se discute a modificação das dinâmicas envolvendo os jovens escolarizados do Brasil, que em breve ingressarão no mercado de trabalho, e as consequências das pressões que sofrem, de seus sonhos relacionando-se com sua mentalidade em formação e com os processos técnicos de que são alvo na escola, no vestibular, na vida.

“Uma borboleta imitada” não é leitura estritamente juvenil, mas, pela protagonista e outras características do relato, aproveitar-se-á mais de seu conteúdo se apresentado a essas pessoas que fazem do estudo e de várias outras atividades extra-escolares seu dia a dia.

Não apenas por se verem retratadas no romance, mas porque é uma literatura de abordagem mais imediata, com traços de oralidade próprios dos jovens, e que por isso pode ser utilizada também como amostra de um diferente escrever e receber a informação, interiorizando a língua descritiva para externar sentimentos e exprimi-los de maneira metafórica mas real, bem condizente com o que se espera hoje nas escolas, ou seja: desenvolver a imaginação e a expressão dos estudantes visando a uma literatura que os ampare e represente, que os sugestione e instigue, como eles próprios praticam atualmente em jogos, fóruns virtuais e afins.

Daí a relevância e a pertinência de “Uma borboleta imitada”, por fatores como os descritos acima. Ressalte-se que os méritos literários do romance sustentam-se por si próprios e podem ser comprovados por qualquer leitor disposto a acompanhar a jornada íntima de Leandra.

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