UM LIVRO SEM TÍTULO: PORQUE DAR UM TÍTULO SERIA PRETENSÃO DEMAIS
Por Matheus CaminiSobre o livro
A “poesia-provocação” de Matheus Camini se propõe desprovida de pretensão, mas é carregada de intenção, a primeira delas a de ser dedicada às mulheres da sua vida.
Assim, já de início o poeta indica a presença constante do feminino no seu discurso de buscas e encontros: afinal, “o princípio do mundo foi uma mãe”.
E, partindo desse princípio feminino, Matheus apresenta uma verdadeira biografia poética através da pungente alquimia de memórias de delicadezas e coragens, da observação do mundo em seus detalhes, da reflexão inventiva do cotidiano e da desboberta de pequenas sabedorias à espera de serem arrancadas do estado de segredo.
A tudo isso ele acrescenta o desejo de contar o que vê e sente na forma de versos comprometidos em libertar a voz lírica de toda amarra e assim investigar além das fronteiras, com plena coragem para abismos.
O poeta-”menino que escreve” sabe que nós também “queimamos” e, com seu olho de profundezas e desvelamentos, nos “acorda as curiosidades”.
Em busca de liberdade e autodescoberta, com “verbo hemorrágico em punho”, ele inventa uma sintaxe, toda uma gramática de dizer sua natureza, seu corpo, seus modos de estar no mundo.
Assim, ele passa do sonho à revolta, do brincar ao lamento e até inventa conselhos: “quando for no mar dance/ (…) quando for no mar/ receba toda entidade/ seja Poseidon e antes/ que o mar escorra/ seja de verdade.” O “menino de açúcar y sangue” constrói poeticamente uma biografia que ao mesmo tempo afirma e questiona os nomes, as identidades, e refaz a própria origem quando precisa para ser o que quer.
O relato biográfico é reinventado pelo fazer poético, perpassando fases da vida do eu lírico e momentos culturais distintos do país em que a questão identitária ganha contornos bastante diferentes como ele constata na observação do irmão, por exemplo. Com e através da poesia, ele cria quem é.
Vai passando “a boca pelo não dito” para se procurar na “própria fuligem” e de lá tirar o menino-sol que é, sabedor do sonho para além do nome. E para além da experiência biográfica, sua poesia é de uma investigação do ser.
Com seu olhar luminoso de menino-sol, Matheus nos põe na roda para dançar com o mar.
Isadora Dutra
Sobre o autor: Matheus Camini nasceu em Porto Alegre, no Rio Grande do sul, e é estudante de Letras – Literatura Brasileira pela UFRGS, onde pesquisa Teoria da Literatura em poetas consagrados de língua portuguesa.
Também é pesquisador no ramo da educação onde costuma publicar ensaios sobre a importância da aprendizagem literária e do saber ler poesia. É formado em Artes Cênicas pela Escola de Teatro Popular da Terreira da Tribo.
Desde muito cedo compõe poemas, dividindo seu coração entre o Teatro e as artes poéticas.
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