Sobre o livro
Évora com seus quintais. Seus velhos quintais com limoeiros do lado de dentro; do lado de cá dos muros, as velhas pedras de calçamento. E líquenes e musgos conformando toda a distribuição e pureza dos muros seculares. Quem vive em Évora gosta de manter suas figueiras e limoeiros. Alguma laranjeira.
Mas limoeiros são comuns. Não raramente, lançam-se por sobre os muros e silenciosamente contam que aquela casa tem morador. Esse artefato compõe a imagem que J Humberto Henriques trouxe de Évora, lugar mais que episcopal em todas as suas memórias.
Questionado e não se sabe por que, ele sempre diz que seu amor por Évora vem de uma dimensão bastante esquálida e anterior, mas que ele, sozinho, não saberia dizer quais as relações que podem ser nascidas desse fenômeno amoroso. Então, de alguma forma que nos parece elementar, conta isso.
Conta isso, dos limoeiros que se excedem e lançam suas galhadas tortas e espinhentas sobre os velhos muros de quintais tão velhos quantos eles mesmo. Mas isso é cena comum em qualquer país do mundo onde existem limoeiros. Isso é sempre visto em países tropicais.
Ou em outros, como o caso da Turquia, mesmo em Istambul, velhas mansardas com suas parreiras de quintal ou de jardim. Troca-se o limoeiro pela parreira. Ou por qualquer outro ramo capaz de surpreender, como o caso de uma pereira qualquer na Romênia.
Ou um marmeleiro solto em ponto algum de área urbana. Depreende-se disso que não é o fruto ou o arbusto, a árvore ou a trepadeira, nada disso é que faz o fato ser esse rompante de poesia.
O que faz a Poesia nascer, por outra via das questões, é a simplicidade com que o autor carrega sua genética elementar. De fato, a natureza doméstica e de política calma que navega em seus modos e em suas memórias mais atávicas. Somente isso.
Se o limoeiro se projeta sobre e cultiva silêncio e olhos do visitante, se os cativa a esses olhos, sinal de que sua importância vai muito além de um retrato efêmero. Ocorre muito mais que isso. Ocorre o todo, a reunião de todos os dados que estão envoltos nesse retrato mambembe.
Trata-se da solidão unívoca de Portugal e suas monções. É a densidade holística que conta em caso assim. Senão, nem seria capaz ou interessado o autor em fazer Poesia com esse tipo de informação imagética.
Portanto, cada pedaço desse muro direciona os olhos para uma região da casa que está a ele agregada. Desde a cozinha até a emanação da chaminé.
Entretanto, o título assim posto carrega o compêndio inteiro nas costas. Mas há somente poucas referências a esse limoeiro, suficientes a nosso entender, para demonstrar o que se propôs como objetivo do autor nessa jornada de mais um livro de poesias.
O que é fundamental, por outro lado, é saber que esse livro fazia parte do Decanato (tentativa de J Humberto Henriques de acenar para o fim de sua produção em poesia), e o seu nome se transformou do número 9 da Epopeya para esse nome bem mais doce e mais ameno.
Um Limoeiro em Évora trata, então, desse caso de Poesia de alta qualidade. Poemas cheios de surpresa, todos em moldes modernos e com estrutura sóbria e sintética, cridos a partir do auxílio dos recursos de computação gráfica. Uma face interposta entre Portugal e o Brasil, ambos com muitos limoeiros a sobrar pelos lábios poeirentos destes muros de então.
Quando se pensa na parte lírica que um título assim é capaz de albergar, não se faz ideia da modernidade que caminha ao longo e nas profundezas desse livro.
Como J Humberto Henriques sempre se promoveu dentro do experimentalismo e da busca continuidade de novos moldes e aspectos para a Poesia, sem desrespeitar o sistema convencional da criação poética com palavras, mesmo aqueles que vieram como herança do modernismo e atuam mais como prosa do que como poesia, aqui estão inseridos poesias de alta qualidade e performance.
Não é somente esse lirismo que seria capaz de levar o autor a concluir sua perfilhação frente ao que tem buscado, o aprimoramento estético em todos os seus níveis.
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