Sobre o livro
Esse livro forma um conjunto homogêneo quase com os livros anteriores que tratam dos visuais de Henriques. Desde Cidadão Antônimo, passando por Aniagem, o figurativo mais pálido das pinturas acaba por performar um bloco único de poemas.
Agora, o tecido da saca de aniagem transborda e chega a essa individualização do termo tapeçaria. Como tudo gira em torno de uma figura arquetípica do trapo e seus derivados, por extensão o autor criou o neologismo trapeçaria.
Trapeçaria corresponde a uma lida diária da estrutura verbal com a sua expressão de coisa. Então, surge o substantivo e invade esta poesia cheia de magia. Aqui deve ser lembrado sempre o estruturalismo surrealista que traz à tona a comparação desse texto com Francis Ponge e Lezama Lima.
Embora sejam coisa distintas, essa criação remete de alguma maneira à insistência de Manoel de Barros com latas velhas e pregos enferrujados. No caso de Henriques, esse apelo foi além da simplória dimensão do perdido na lama.
Aqui surge, mesmo por estar associado o poema com palavras com alguns dos visuais, a matéria mais imponente para a formação dessa dualidade que se congrega na massa do mais que perfeito. Estamos a um passo da pintura e a dois passos além da poesia convencional.
Trapeçaria insiste em apresentar o visual puro. O autor adota essa manobra que é bastante condizente com o nível de criação em que se encontra. Trata-se mesmo de uma ousadia muito benvinda, já que sobreleva a Criação e traz de novo a invenção de uma Estética avassaladora.
Por isso também é gratificante tratar desse tipo de relacionamento de Henriques com o visual porque esse, arquetípico de sua própria invenção, mostra toda a exuberância de seu poder e eloquência.
Sempre achamos oportuno citar alguma crítica do grande Guido Bilharinho, sempre expressivas e donas de um pragmatismo substancioso.
Sendo assim, deve ser notado – e com louvor – esse texto de Guido, uma crítica atual e moderna sobre a Estética e sua forma de ser compreendida dentro do contexto das Artes Plásticas no mundo inteiro. Assim comenta Bilharinho.
Existem inúmeros níveis ou tipos de prosa (não literária, literária e, nesta, principalmente, a prosa de ficção, a crônica, o texto). A diferença entre ficção e crônica é facilmente detectada à simples leitura, inclusive, porque ambos os gêneros são bastante cultivados.
Já não ocorre o mesmo entre crônica e texto, mesmo porque este último é normalmente confundido com poesia, como, em muitos casos, a crônica também o é. Na verdade, o texto constitui gênero intermediário entre a crônica e o poema. Contudo, é mais do que aquela e menos do que este.
É mais sútil, elíptico e elaborado do que a crônica e menos que o poema. É prosa. Não é poesia. A distinção básica é questão de grau de operacionalidade (de elaboração), de pesquisa e resultado alcançado.
O poema não se compadece com a discursividade da prosa porque, então, configuraria esta e não aquele. O texto, mesmo o mais elaborado, ainda é discursivo e, portanto, prosa.
Por sua vez, o poema (para sê-lo verdadeiramente), além de nuclear a palavra, é e deve ser elíptico, elaborado (com rigor), contido, sutil e, já em grau de inventividade, constituir-se em pesquisa de linguagem, em criação e instauração de novas linguagens.
É infenso à descrição e à discursividade e refratário a qualquer narração e linearidade. Cremos ser de elevada importância esta distinção entre um objetivo e outro. nada mais fascinante que entender esse desafio e compreender como as cosias podem ser factíveis ou não.
E como devem e podem ser chamadas de poesia ou não. Mesmo não tendo esse caráter absolutista, a ideia que aqui se demonstra transcende, porque, a se julgar como base nesse modo de interpretação, 99% dos poetas deveriam estar inseridos na qualidade de prosadores.
Isso ainda mais visível depois que o Modernismo de Bandeira e Drummond trouxe à luz das velas acesas a questão
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