Sobre o livro
Descrição de SUPLÍCIO DE FREI CANECA, por Ângelo Monteiro
Quem é Frei Caneca? Um simples sacerdote? Um mártir? Um herói? Um impostor? Um santo?
O amor à liberdade do povo brasileiro, pela qual padeceu a morte por fuzilamento, a sistemática recusa de homens do povo em puxar a corda que o enforcaria em praça pública e seus escritos, são alguns exemplos que denotam a fibra inquebrantável deste “buliçoso frade”, segundo a expressão de Oliveira Lima.
Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, nasceu a 20 de agosto de 1779, filho legítimo de Domingos da Silva Rabelo e Francisca Alexandrina de Siqueira, família humilde que morava na freguesia de São Frei Pedro Gonçalves (hoje bairro do Recife Antigo, que à época todos chamavam de “Fora de Portas”).
Domingos Rabelo trabalhava modestamente em copos, canecas, barricas, toneis, funis e demais modelações artesanais do flandre. Dessa atividade de tanoeiro adveio-lhe o epíteto de “Caneca”.
Aos 17 anos de idade, Joaquim do Amor Divino começou o noviciado no Convento do Carmo, no Recife, onde se ordenou cinco anos depois. Logo nomeado lente de Filosofia, Retórica e Geometria, aderiu ao apelido paterno, substituindo “Rabelo” – ligado à sua origem portuguesa – por “Caneca”, passando a assinar-se como Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, ou simplesmente Frei Caneca, como era por todos conhecido.
Participando das lutas de 1817, como um dos conspiradores da Academia Paraíso e doutras sociedades secretas, Frei Caneca chegou a integrar a Junta Governativa que proclamou a República no Recife por apenas setentas dias.
Responsável pelo aparecimento de O Typhis Pernambucano, jornal político que fermentou o animus revolucionário da fracassada Confederação do Equador (1824), Frei Caneca foi fuzilado na Fortaleza de Cinco Pontas, no Recife, em 13 de janeiro de 1825.
Suplício de Frei Caneca se enquadra na linha claudeliana pela escolha de figuras paradoxais e aparentemente divididas como Joana D’Arc que, sendo Santa, foi Guerreira, porém queimada como Feiticeira ao tentar salvar a França.
Cláudio Aguiar neste Oratório Dramático, tem como protagonista uma figura da mesma têmpera e grandeza: Frei Caneca que, sendo Frade e Sacerdote, foi levado à atividade revolucionária e condenado pela Coroa brasileira à pena capital como traidor da Pátria.
As grandes personagens do drama não só da Arte, porém da Vida, são todas marcadas pelo sentido do paradoxo e mesmo da contradição.
Este Oratório Dramático, que se distancia, pela linhagem estilística adotada, de muitas obras do teatro brasileiro contemporâneo, recebe, por vezes, um tratamento que lembra os melhores momentos de Paul Claudel, sobretudo no caráter poético de boa parte do texto e, possivelmente, na utilização de elementos extraídos do nosso folclore para melhor atingir o clímax do drama por meio de recursos tomados de empréstimo ao burlesco das situações que, antes de serem teatrais, foram fundamentalmente humanas.
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