Sopas de Sargaço

Por João Carlos Martins

Sobre o livro

Os caminhos trilhados

jamais voltarão a repetir-se

Os segredos transmitidos

nunca deixarão de ser segredos

mas nada ficará por revelar

no centro das clareiras

do tempo

do mundo

das coisas

das pessoas

da terceira margem

Pintor, poeta, escritor, João Carlos Martins faleceu deixando diversos escritos por publicar – poesia, ensaio, romance, contos. Sopas de Sargaço é um pequeno livro de ficções, uma aguarela viva sobre o ser português em Portugal.

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Ao descer, no momento exacto em que atravesso o patamar do primeiro piso, dou de caras com esse Antero Marques, um pide que só conhecemos por torturar gente indefesa no Quibaxe.

Ele fala-me logo, mas não lhe dou tempo de perceber que o reconheço. Dou dois passos adiante, deixo espaço para cruzar-me com ele, e só paro quando me chama pela segunda vez.

— Bom dia! Então chô Martinho, tá bom? Quer dizer, tá melhor? Você teve de baixa, não foi? Não o via há que tempos… —

— Perdão… —

— O chô mora aqui? Atão, tá de saída? —

— Não moro, não… Desculpe, mas eu não o conheço, pois não? —

O carantonha cora.

— Não me conhece?! Essa é boa! Pois eu, homem, é boa! Atão, eu sou o Marques, não se lembra? —

— Não senhor, queira desculpar, bom dia, com licença… —

— C’os diabos, amigo, atão não se lembra? Sou o Marques, que estive nos Dembos, e atão o chô Martinho não é o amigalhaço do nosso capitão Vilela? —

— Não sei quem é, mais uma vez desculpe. Sou do sul, não me chamo Martinho, e nem conheço nenhum capitão Vilela. E olhe que estou com pressa, sabe? O senhor enganou-se, e pronto. Sucede a qualquer um. —

— Bem… se é o… se não é, que diabo! Conheço um moço Joaquim Martinho que é o chôr a papel químico, mas… bom, é a segunda vez que aqui venho e… eu ia jurar, homem, haan… ver um andar aqui p’alugar e… sempre era fixe ter alguém conhecido, atão… —

— Olhe, já lhe disse que tenho pressa. O senhor nunca o vi mais gordo, está só a perder tempo e a fazer-me perder o meu, entende? Mas se não lhe… —

— Olhe mas que porra esta, que eu só ia a dezer que o chô Martinho eu vi-o… —

— E se não lhe apetece pedir desculpa, então vá-se foder, e adeus. —

O minhoca fica roxo, e eu levanto a bengala para retomar a descida. Encosta-se à parede e, de roxo, passa a um tom azeitonado.

Avanço para a escada. A meio dos dez degraus ouço-o meter a chave no trinco e berrar cá para baixo:

— Vá você, seu cabrão! Seu merdas! Atão não te conheço, que inda te dou um tiro nos cornos, ai dou, dou! Olha m’este, não te ponhas a pau comigo, seu manco de merda! —

Deixo a minha chave na caixa do correio e saio para a rua cheia de gente, com um vómito a esganar-me o peito.

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