Sobre o livro
Em 14 contos, o escritor Filipe Henz Alencar desfia os múltiplos significados da palavra exílio. E esta vai muito além daquilo que se denomina a expulsão da pátria.
Mais que um movimento geográfico forçado, é o deslocamento de si diante do mundo que se reconhece como seu; é a aniquilação do que se poderia chamar de “conforto do lar”.
Em concordância com as múltiplas significações da palavra no dicionário, lembra-se, então, que exílio é também degredo, um lugar que traz grande infelicidade, e, principalmente, a solidão que se vive.
Assim, nessas curtas narrativas, os personagens parecem se sentir sempre sozinhos, desconectados não de suas realidades, mas dos outros e daquele bem-estar que se faz tão necessário para que a vida siga adiante.
Sombras sempre longas, conto que dá título ao livro, traz uma narrativa em que um casal se vê impelido a escapar do vilarejo destruído pelo fogo. Não se sabe o que provocou o incêndio, nem para onde vão – isso não importa.
O que se evidencia ali é a percepção que a mulher tinha desde antes do desastre sobre a necessidade de ir embora do local em que se encontra e, ao mesmo tempo, o desalento do homem pela sua nova condição.
São esses incômodos, combinados e motivados de diferentes formas, que parecem manobrar as ações (ou a falta delas) de muitos dos personagens que povoam os contos aqui presentes. A memória interrompe o cotidiano em Surpresa!. A esperança dos que ficam se converte em angustiante espera em Promessa.
A saudade chega às raias do fantástico em Reencontro. A caminhada serve de reflexão em Antes da tempestade. A perda do filho torna o casal estranho a si mesmo em O quarto. A perda do animal de estimação também coloca a tutora em um lugar estranho em Depois da rodovia.
A amizade entre dois homens que não acaba pela distância é posta em xeque pela morte de um deles em Amigo distante. Mas nem só de questionamentos humanos são feitos os textos de Filipe. Negócio gastronômico e Conterrâneos têm como protagonistas homens que, enfim, alcançaram o objetivo: autoexilar-se.
Porém, são obrigados a lidar com a realidade de serem imigrantes. Ingenuidade e escrúpulos não terão vez aqui.
Velhos amigos revela como que as novas comunicações não garantem a empatia, muito menos qualquer sentido de companhia e afago à dura realidade de que estamos sozinhos diante de nossos próprios atos.
Esse sentimento se prolonga em O hóspede, no qual um homem se vê perturbado pelo desejo de garantir a continuidade de sua linhagem.
Por fim, Deliberada fortuna, o conto mais extenso do livro, que foi dividido em duas partes, afirma a possibilidade do contato entre pessoas de duas línguas tão diferentes, ao mostrar – numa das passagens mais belas deste livro – o protagonista compreendendo toda a trajetória de dor do imigrante de fala incompreensível apenas pela sinfonia de suas palavras.
É como se o som – a música, ou a arte, em suma – pudesse criar uma ponte entre eles e que, na certeza dessa compreensão tão pouco racional, valesse a pena estar ali contando (e ouvindo) essa história de vida.
E, afinal, não merece toda grande narrativa de dor ser contada e registrada, por mais estranha que ela nos pareça? Filipe alcançou esse lugar. Ele deve ser lido. (Texto da orelha).
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