Sobre o livro
O pesadelo dos políticos canalhas; o ácido retrato de uma sociedade apocalíptica.
Um jovem estagiário de jornalismo ansioso por uma tragédia – para ter matéria. Um sujeito que se torna ditador genocida pois tem micropênis. Uma idosa maluca que é responsável por uma guerra sem fim.
Tem-se aqui um pé na realidade e outro no absurdo. Nossa sociedade é tão apocalíptica que, muitas vezes, tudo parece um grande hospício. E a gargalhada é garantida. São 60 textos, mesclados entre contos e crônicas, numa boa dose de humor ácido e situações pitorescas.
Conto “Estagiário de jornalismo”:
Hoje testemunhei um atentado terrorista. Deveras feliz fiquei. Meu estágio como jornalista chega ao fim daqui uma semana. Até então eu não havia conseguido uma matéria sequer. Nenhum furo de reportagem.
Nenhum mendigo fornicando com ninguém, nenhum conflito em estádio de futebol, nenhum ônibus pegando fogo. Nenhum artista cometendo adultério ou sendo assassinado. Nenhum prédio tombando. Tédio global reinava. Estava com o coração em mãos!
Foi um semestre de desespero: ansiava por alguma tragédia, por alguma notícia chocante, mas permanecia zerado. Até então. O homem-bomba saíra correndo do hotel, em direção aos carros na avenida, e, num piscar de olhos, boom! Cacos para lá, bracinhos para cá. Gritos histéricos, tão linda sonoplastia!
Registrei tudo! Achei curioso o cidadão correndo e comecei a gravar com meu celular, sem pretensões. Quando ele abriu a jaqueta e deixou à vista aquele aparato explosivo, sorri feito criança diante de um pirulito. Instantes depois, o barulho ensurdecedor. A explosão atingiu carros próximos ao meu.
Dei sorte em dobro: Mantive-me ileso e consegui cenas exclusivas. Hoje provei minha competência; hoje irei brilhar no Jornal Nacional.
Trecho da crônica “A pílula da ereção infinita”:
Temos muita sorte de viver em era tão tecnológica, mas terão sorte mesmo nossos filhos e netos – destes nem se fala! viverão no paraíso. Antigamente quando se nascia com o pênis minúsculo, quase invisível, uma minhoquinha desprezível, a única solução era se contentar.
Quando o nariz era grande demais, nada havia para se fazer; rinoplastia soaria como ficção científica. Mulheres de tetas invisíveis teriam que aceitar a condição de busto em formato de tábua. Hoje em dia é diferente.
O gordo fica magro, o magro toma bomba, a bunda sugada pra dentro é expelida para fora, a hemorroida é empurrada para dentro. Tudo graças a operações e pílulas milagrosas. Temos Deus em cartelas. Cada comprimido é mais eficiente do que cinco horas ininterruptas de oração.
Bendito seja o farmacêutico criador de tudo (…)”.
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