Só Sei Que Nada Sei O tempo corria diferente na Comunidade das Palmeiras . As ruas continuavam as mesmas — ladeiras estreitas, crianças jogando bola, o som do rádio ecoando nas varandas — mas o mundo lá fora já era outro. Enquanto uns andavam com o celular colado na mão, outros ainda anotavam recados em cadernos surrados. O progresso tinha chegado, mas nem todos sabiam o que fazer com ele. Dona Zefa , de setenta anos, era dessas que olhavam o novo com desconfiança. — Esse tal de aplicativo é coisa do demônio — dizia, enquanto tentava entender como o dinheiro “entrava” no celular sem ninguém ver. Já Seu Geraldo , aposentado, gostava de observar os netos e dizia: — Eu nem tento entender, minha filha. Já vivi o bastante. Esse negócio de internet não é pra mim. Mas nem todos pensavam assim. Carla , de vinte e dois anos, era estudante de informática e acreditava que o futuro podia caber dentro da favela — bastava querer aprender. Ela via o quanto a tecnologia facilitava a vida, mas também via o quanto deixava os mais velhos de fora, presos à sensação de que o mundo estava rápido demais para eles. Um dia, cansada de ver essa distância crescer, Carla decidiu agir. Com a ajuda de amigos, transformou a antiga associação de moradores — antes esquecida e cheia de poeira — em um Espaço Digital Comunitário . Trouxeram dois computadores usados, uma impressora velha e uma vontade enorme de ensinar. No primeiro dia, apareceram apenas três curiosos: Dona Zefa, Seu Geraldo e a vizinha Cidinha. Todos com o mesmo olhar de medo e curiosidade. — Não precisa saber nada — disse Carla, sorrindo. — A gente aprende junto. A cada semana, mais pessoas foram chegando. Uns queriam aprender a mandar mensagem para os filhos que moravam longe; outros, a usar o caixa eletrônico sem medo. Aos poucos, os medos foram dando lugar às risadas. Dona Zefa, que mal sabia segurar o celular, aprendeu a fazer videochamadas. Quando viu o rosto da neta na tela pela primeira vez, chorou. — Parece milagre, minha filha… ver quem tá longe assim tão de perto! Seu Geraldo passou a digitar devagarinho, com os óculos no meio do nariz, e dizia para os meninos: — Nunca é tarde pra deixar de ser burro. O espaço virou ponto de encontro. As crianças ensinavam os adultos a mexer no celular, e os adultos retribuíam contando histórias do passado, ensinando receitas e conselhos de vida. O que começou como um curso virou uma troca de saberes . O conto mostra que, aos poucos, a comunidade foi se transformando. Os que antes diziam “não sei de nada” começaram a ajudar os vizinhos. Criaram um grupo no WhatsApp para alertar sobre enchentes, divulgar empregos e marcar mutirões de limpeza. A tecnologia, antes vista como inimiga, virou ferramenta de união Num dos encontros, Carla escreveu no quadro branco a frase que dava nome ao projeto: “Só sei que nada sei.” — Sócrates. E explicou: — A sabedoria começa quando a gente aceita que não sabe tudo, mas quer aprender. No final, a comunidade, antes dividida entre o passado e o presente, aprendeu a viver o novo com humildade e solidariedade. As gerações se reencontraram, e o saber virou ponte — não muro. Numa tarde tranquila, enquanto o sol caía por trás do morro, Dona Zefa disse sorrindo: — Agora entendi, menina. O mundo muda, mas a gente pode mudar junto. É só querer aprender… e não ter vergonha de perguntar. Carla respondeu com os olhos brilhando: — É isso, dona Zefa. Ninguém sabe tudo — mas juntos, a gente sabe muito mais. ✨ Mensagem final O conto mostra que o conhecimento não é privilégio de poucos, mas direito de todos.
Características do eBook
- Autor(a): Sérgio Ciríaco de Freitas
- Categoria: Autoajuda
Amostra Grátis do Livro
Faça a leitura online do livro Só sei Que Nada Sei, escrito por Sérgio Ciríaco de Freitas. Esse é um trecho gratuito disponibilizado pela Amazon, e não infringe os direitos do autor nem da editora.



