Seja Trouxa: Como Sustentar Seu Político de Estimação
Por Sérgio Ciríaco de FreitasSobre o livro
Seja Trouxa: Como Sustentar Seu Político de Estimação
O conto narra a história de uma pequena cidade — que poderia ser qualquer cidade — onde os cidadãos cultivam um hábito curioso: criar políticos de estimação. Eles alimentam suas campanhas, defendem suas falhas nas redes sociais, brigam com amigos e familiares por eles e, a cada quatro anos, os reconduzem ao cargo com a mesma esperança renovada.
O protagonista coletivo da história é o “eleitor de boa-fé”, um trabalhador comum que acredita, eleição após eleição, nas promessas grandiosas de um político carismático, especialista em discursos emocionados e apertos de mão ensaiados. O candidato promete o mundo — escolas modernas, hospitais eficientes, empregos abundantes — mas entrega sempre o “fundo”. E não o fundo de investimento, mas o fundo do poço.
A narrativa percorre gerações: avós que votaram, pais que confiaram, filhos que repetem o ritual quase como tradição familiar. O discurso muda, o slogan se moderniza, a campanha ganha novos jingles, mas o roteiro permanece o mesmo. O político só aparece em época eleitoral, abraça crianças, tira fotos em feiras populares e desaparece assim que as urnas fecham.
Enquanto isso, o orçamento público evapora misteriosamente. Escândalos surgem, provas aparecem, investigações avançam — e, ainda assim, o político retorna sorridente no próximo pleito. O eleitor, mesmo prejudicado, justifica: “Rouba, mas faz”, “Foi perseguido”, “É o menos pior”. A mentira se torna verdade repetida, e o descaso vira rotina.
O conto também ironiza o sistema que sustenta essa engrenagem: aliados influentes, estruturas de poder coniventes e uma sensação constante de impunidade que transforma o absurdo em normalidade. O cidadão sofre com serviços precários, impostos altos e promessas vazias, mas raramente percebe que possui a ferramenta mais poderosa para romper o ciclo: o voto consciente.
Com humor ácido e crítica social, a história mostra como o eleitor, sem perceber, financia o próprio prejuízo e ajuda a perpetuar aqueles que legislam em causa própria. Os “picaretas travestidos de honestos” prosperam não apenas por astúcia, mas pela repetição da ingenuidade coletiva.
A moral do conto é direta: enquanto o povo tratar político como ídolo de estimação, continuará bancando sua própria frustração. Mas, no dia em que acordar e aprender a votar com responsabilidade — e não por paixão, costume ou manipulação — o ciclo poderá ser quebrado.
E, então, talvez o fundo deixe de ser o destino inevitável.
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