Sala dos Espelhos

Por José Humberto da Silva Henriques

Sobre o livro

Sala dos Espelhos é um compêndio de poesias de faceta extraordinária. É um livro absolutamente introspectivo e com relances de absurdo, fato que poderia conduzir o leitor a uma conclusão outra vez surrealista, mas na acepção mais completa do termo.

Esta retomada da poesia – convencional, como diriam alguns – por José Humberto Henriques, traduz a alegoria da busca continuada da perfeição dentro da quintessência da Literatura, a própria Poesia.

Existe uma magia cheia de fortuna e de relances enigmáticos nessa busca reiterada por uma palavra de impacto, por uma sentença que leve ao verso sem jaças.

A formatação desse livro – Sala dos Espelhos – é feita nos moldes anteriores dos outros livros do poeta. Blocos com nove poemas em cada um, a numeração das poesias e a falta completa de título.

Como esse livro é temático, uma sala de espelhos com quatro velhos se mobilizando de lado a lado, espelhos deformadores de parque de diversão. Aparece um menino que observa tudo e um cachorro atravessa por ali, diante da sala e desparece.

Não existem personagens a mais nesse livro, mesmo os velhos são criações espectrais. Já o menino, composto nos mesmos formatos dos velhos, poderia muito bem ser o alterego do próprio autor, memória de um tempo que poderia deveras ter acontecido em seu mundo pregresso.

Quando se pensa que o poeta esgotou seu veio, vem à tona mais uma tonelada de versos de impacto graúdo. Nesse livro, de forma bastante peculiar, o autor transtorna a própria criação poética, jogando contra e – muitas vezes, gerando o paradoxo – a favor das possibilidades.

É um livro de estranhas probabilidades. De tal sorte esses velhos atuam dentro dos poemas numa sequência de equações sentimentais e animistas, de tal sorte que todo o corpo do livro é único, da forma como acontece em Morte e Vida Severina, de João Cabral de Mello Neto.

Uma informação prestigiosa e delatora nesse livro, Sala dos Espelhos, é a dedicatória que acontece no introito do volume. Acredita-se que pela primeira vez o poeta dedicou o livro a uma alma viva.

As dedicatórias de seus livros, todos os 340 já publicados, costuma acontecer à elementos guturais e passivos, a coisas e bichos, a lixos e coisas de desprezo. Muitas vezes dedica ao nada esse autor. Aqui, faz a dedicatória a um quarteto, Pedro Pereira, José Alves, Osório Pereira e Amâncio.

O último, desaparecido há duas décadas, é o avô do poeta. Sendo acontecido e informado nessa plataforma, o menino deveras poderia ser o alterego do escritor. Sobra o cachorro que atravessa poesia e pode ser que nunca mais seja visto.

Quanto aos espelhos, a suspeição de uma visita antiga a um parque de diversões, alguma coisa desse naipe, coisa que mexeu com a instigada e arguta memória do autor.

Não é muito fácil analisar uma obra desse porte. A poesia merece cuidado e atenção, mormente quando se trata de romper as amarras diante de um grande poeta.

Ninguém pode duvidar que aqui se trata deum poeta maior, um daqueles poetas federais que zanzam diante dos estaduais e municipais, aqueles dos versos de Carlos Drummond de Andrade.

Quando se tem uma obra de teor introspectivo, como acontece com esse Sala dos Espelhos, mais dificultoso se torna o trabalho de remexer com tais referendos. O livro é redundante, gira e morde o próprio rabo. Sobre a obra de Henriques já havia assim se pronunciado Duílio Gomes.

E parece que tal constância ainda precisa ser considerada.

Quando se pensa nesse terreno mádido e propício demais à pesquisa, tem-se a sensação de que é inesgotável esse poliedro sujeito a todo tipo de pesquisa.

Quem quiser se entreter com essa ampla possibilidade, vais ter a seu cargo um volume de escritos muito grande, quiçá o maior do planeta até os dias hodiernos. A eclosão das chances impostas pelo computador levou esse autor a publicar mais de uma centena de livros.

Portanto, uma tarefa assim é muito fácil de ser começada e quase impossível de ser terminada. Por isso, tudo deveria ser feiro em etapas.

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