Relato de um emigrante: De Santiago de Compostela a Montevidéu

Por Manuel Losa Rocha

Sobre o livro

Manuel Losa, autor desta obra, nasceu em 1940, em Santiago de Compostela, a cidade que há séculos recebe peregrinos atraídos pela fé.

Este é o cenário do primeiro capítulo deste livro de memórias: a cidade e suas ruas, suas praças e igrejas, para além de sua portentosa catedral, suas festas e comidas, seus cheiros… Tudo que desperta os sentidos é narrado com detalhes nesta obra feita da memória para a memória.

É esta uma escrita sobre a morriña, palavra espanhola que significa “saudades de casa”, um sentimento que acomete qualquer emigrante. Manuel Losa é um emigrante que convive com a morriña desde 1953 quando embarcou com sua família rumo a Montevidéu.

O Uruguai da década de 1950 era famoso pelo futebol, mas também por causa de sua moeda forte, seu bom padrão de vida e leis sociais avançadas. Eram tempos em que se lhe atribuía a alcunha de “Suíça da América”.

Já a Espanha, pátria natal de nosso autor, precisava lidar com a carestia, o franquismo e suas várias perseguições, inclusive às línguas não hegemônicas, tais como o basco e o catalão, ademais do galego.

É preciso contextualizar esse cenário: após a curta experiência da Segunda República (instalada em 1932), em 1936 eclode a guerra civil espanhola.

A resistência republicana assume ares míticos em função do alistamento de personalidades como Ernest Hemingway e George Orwell, mas não impede a vitória definitiva dos profissionais da guerra e a consolidação no poder do Generalíssimo Francisco Franco até sua morte, em 1975.

Em 1939, à Espanha restaria um saldo aproximado de 400 mil mortos, destruição, fome e o temor de que a proximidade de Franco com outros fascistas conduzisse a uma nova guerra.

A carestia estava tão entranhada no cotidiano da família Losa, que já nem a notavam.

Mas suas perdas acumulavam-se no mesmo ritmo em que cresciam os relatos sobre os “milhares de espanhóis”, especialmente galegos, que “Iban a América para facerse ricos”. Um tio que singrara o oceano anos antes envia uma “carta de reclamação”, trâmite pelo qual um residente no Uruguai “chamava” um familiar para a migração.

E…

“Adiós ríos; adiós fontes; /adiós, regatos pequenos; / adiós, vista dos meus ollos; / non sei cando nos veremos” – os versos de Rosalía de Castro na doce língua galega consolam o coração da família que emigra seguindo a promessa de que, no Uruguai, se podia comer toda a carne que se quisesse.

E, de fato, comeram, e iniciaram uma nova etapa, com novas palavras, com novas paisagens. Mas a Galícia seguiria sendo um grande amor, um amor trágico.

Narrar a Galícia implica narrar o amor que se sobrepõe à emigração, narrar as “viúvas de vivos” cujos maridos partiram em busca de sustento, narrar a miséria indiferente à beleza das rias, narrar o perigoso ofício de percebeiro, quem coleta, entre as rochas e o mar bravio, um dos crustáceos mais caros da alta gastronomia.

Este relato de um emigrante é fruto das reflexões de um escritor maduro, e foi originalmente escrito nessa língua espanhola que mescla sua origem ibérica e a variedade uruguaia. As frequentes expressões galegas, não raro, fazem-se acompanhar de notas do autor ou da tradutora.

Desse modo, este é agora também um relato do português do Brasil para os milhares de descendentes galegos que aprenderam a conviver com a palavra “saudade”, a saudade de casa, a ressignificar a demonstração de afeto por sua Galiza natal.

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