QUID PRO QUO: Dois dedos de história do Brasil com a corrupção e o jeitinho brasileiro como base
Por João Carlos Vicente FerreiraSobre o livro
A corrupção brasileira é uma epidemia sem vacina.
Dos tempos coloniais, onde Raimundo Faoro diagnosticou o patrimonialismo e o personalismo luso como causas dessa doença, aos primeiros anos da confusa república em que José Murilo de Carvalho aponta para a oscilação de valores constitucionais, o fenômeno das vantagens indevidas é percebido de forma opaca.
Há um conjunto criativo de justificativas para a corrupção, nenhuma delas apta a suportar de pé o confronto que, afinal de contas, chega com demora ou não chega. É na confusão entre a autoridade pública e o patrimônio particular que grassam toda a sorte de ilicitudes.
O livro de João Carlos Vicente Ferreira, resultado de uma apurada pesquisa historiográfica, é um olhar afiado sobre a realidade nacional. Tudo o que somos – um projeto mal acabado de nação, perdida em equívocos políticos, financeiros, sociais.
A corrupção nos faz abortar o progresso que desvanece em miragem antes de acontecer. O colosso deitado eternamente em berço esplêndido adia para a geração seguinte as soluções mais urgentes.
Nos textos, ressai o patético do brasileiro antes que houvesse propriamente o Brasil, uma terra destinada a ser consumida. A cordialidade de Sérgio Buarque e o colonialismo de Gilberto Freire encontram eco no sistema nacional de corrupção percebido por Vicente Ferreira.
Ao longo do livro, o estudioso dos problemas nacionais chega a sorrir diante da face inescrupulosa de nossa elite. Em seguida, um profundo sentimento de tristeza e de impotência percorre a espinha do leitor que pressente a sua época idêntica ao passado do qual acaba de se rir.
O brasileiro faz troça da própria miséria e uma parcela substancial do povo tem inveja de quem logra a vantagem indevida. Os criminosos seriam mais capazes, mais inteligentes e merecedores da posição que ocupam.
A condenação pública à corrupção só se dá por obrigação quando, na verdade, o crítico queria mesmo era lambuzar-se igual. O que falta é a oportunidade. Mas, afinal, o que é corrupção? A pesquisa de Vicente Ferreira aponta para a mutação conceitual. Não poderia ser diferente.
O que seria interpretado como vantagem indevida é rapidamente transformado em prerrogativas legais, quando não constitucionais. Daí que o escândalo passa a ser norma, calçada na retórica típica do bacharelismo brasileiro.
No contemporâneo, a corrupção está tão regulamentada no país que não há cerimônia alguma em apresentar um quadro de vantagens classistas, por exemplo, em meio à miséria mais odiosa.
Desigualdades que foram, ao longo do tempo, normalizadas: o grileiro passa a ser proprietário, o sonegador se transforma em empresário, o corrupto confesso vende a imagem de competente realizador. A corrupção é um instrumento que serve à manutenção de classe.
Os estudos de Caio Prado Júnior apontam que as estruturas econômicas brasileiras só poderiam se manter com base no pensamento solidário de classe. Resta saber como se combate o mal que, para a classe dirigente, faz muito bem.
O maior desafio do Brasil talvez seja sair da secular letargia sem rompimentos com a frágil democracia, sem ceder ao populismo autoritário, sem cair na armadilha do personalismo salvacionista. Ao final, Vicente Ferreira faz uma terrível provocação – é obrigatório ser corrupto?
Essa pergunta resume outras menor calibre. A fundamentação da corrupção é que a prática está tão entranhada na vida pública nacional que passa a ser impossível integrar o poder sem se refastelar na lama. Se ninguém é limpo, a sujeira está plenamente justificada.
À guisa de conclusão, seria interessante perceber que a corrupção só existe porque corruptos há em postos de controle. Eis aí o dilema nacional. Quem nos fiscaliza e quem nos julga deveria, antes, romper com a cadeia leniente de vantagens recíprocas. Quosque tandem? Ninguém sabe.
Eduardo Mahon Escritor e pesquisador • Academia Mato-grossense de Letras Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso
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