Quase Jardins

Por I. Luiz Andrade

Sobre o livro

Quase Jardins narra a história de uma família envolvida em profundos silêncios existenciais: o que é apatia é também amor, o que é loucura é também lucidez, e o que é esquecimento é também lembrança.

São fragmentos da memória, desenhos que registram marcas e fugas de uma infância, reflexões sobre a existência e sobre os limites entre o real, o imaginário e a fantasia.

O ato de rememorar delineia os dias de José do Lago, o pai, que vê no jeito silencioso do filho, Júlio, o seu próprio silêncio, presente desde a sua própria infância, vivenciada na mesma casa onde ele permanece com a família: Mariza, a esposa, Helena e Júlio, os filhos, ainda crianças.

Consequentemente, o quintal é o mesmo, um jardim de fantasias e sonhos, tantos deles desfeitos. José do Lago e as lembranças que tem da mãe, melancólica e dependente de medicamentos, e de uma avó que o rejeitava e marcava um sentimento de loucura e pavor.

Mariza sempre conheceu parte da sua história e se preocupa em romper o silêncio na casa. Entretanto, fragilizada, ela é também tomada por um silêncio, até que um dia descobre um Centro Psiquiátrico, onde passa a trabalhar como voluntariada e a sua vida começa a mudar.

Lá, ela conhece um possível louco que a conduz a novas reflexões e atitudes, diálogos que têm como cenário um imenso jardim, lugar onde loucura e lucidez se confundem. Júlio é o filho mais novo, retrato psicológico do pai.

Um é o espelho e o outro é a imagem refletida nesse espelho, protagonismo dividido em toda a narrativa; Helena é a filha mais velha, em torno de oito anos, e, emocionalmente, é a mais independente da família, ao criar histórias a depender da necessidade do instante, principalmente com o propósito de romper com os silêncios e a melancolia do irmão.

Quase Jardins é marcada por uma sensação de harmonia, se nela não há intrigas familiares. Há sim, outras intrigas e desarmonias, envoltas em silêncios.

É uma narrativa marcada por um desejo de felicidade, sonhada entre ruas, medicamentos, fantasias, os espaços da casa, porta-retratos, jardins e rios metafóricos.

São fragmentos da memória, desenhos que registram fugas de uma infância, reflexões sobre a existência e sobre os possíveis limites entre o real e o imaginário.

“Um romance polifónico, no sentido mais bakhtiniano possível, onde todos as personagens têm o mesmo brilho, a mesma força. A escrita do texto foi construída de tal forma, que ao caminhar pelos capítulos, muitos horizontes se desdobram.

Não há um centro único e intocável, há o deslize, há o encanto, há inúmeras saborosas surpresas. Se o autor está morto, como afirmaria Barthes, Foucault e tantos outros grandes nomes, não posso afirmar.

Posso apenas dizer com muita certeza que o autor principal do texto é o próprio texto, dialógico e polifónico, como cada um de nós, e por isso o romance é tão envolvente e tão sedutor.

O autor, morto ou não, foi acima de tudo artista, soube usar com maestria cada palavra, soube articular a linguagem de tal forma que a entrega do leitor é inevitável.” (Cláudia Souza, Prefácio)

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