QUANDO OS DIAS ERAM MUITO LONGOS: E OUTRAS HISTÓRIAS
Por Leila Silva TerlinchampSobre o livro
Reuni neste livro alguns contos que fui escrevendo ao longo dos anos, muitos anos, mais de vinte. São histórias baseadas principalmente na nossa vida de imigrante. Histórias ouvidas, histórias vividas, histórias em parte imaginadas, mas sempre pautadas na experiência migratória.
Experiência essa muito particular, plena de contradições, de tristezas, de perdas, por vezes de traumas, mas também de algumas alegrias, felizmente. O imigrante é realmente alguém que precisa dominar a “arte de perder”, conforme o belo poema de Elizabeth Bishop.
Deixamos para trás a família, casas, cidades e um continente, e temos que nos adaptar a um mundo novo, a uma nova língua, uma nova cultura. Cada um faz como pode, uns se saem melhor e outros têm mais dificuldade.
Os imigrantes não são um grupo homogêneo, mas as batalhas que temos que enfrentar são semelhantes.
Um psiquiatra, Joseba Achotegui, inventou um bonito nome para o estresse agudo ligado à imigração: Síndrome de Ulisses. Ulisses é o herói da mitologia grega, personagem da Odisseia de Homero, que deixa sua terra natal e vive inúmeras aventuras e desventuras.
Esse estresse ou mesmo depressão é devido a problemas como solidão, exclusão, impotência, medo. Medo de naufragar na tentativa? Sim, esse é um perigo concreto para muitos que tentam ganhar a Europa em embarcações precárias, como temos visto nos noticiários.
O imigrante é aquele que não está nem num lugar nem no outro, nem lá nem cá. Ele passa por uma ruptura muito grande para a qual, muitas vezes, não tinha nenhum preparo, pois sequer sabia que ela existia, não tinha consciência.
Alguns dos brasileiros que encontrei ao longo do caminho decidiram emigrar em “un coup de tête”, ou seja, sem pensar, num repente; então partem despreparados sob todos os pontos de vista, sem conhecer a língua, sem conhecer a realidade do país aonde estão indo viver, sem dinheiro para recomeçar a vida e frequentemente, sem os documentos necessários, vão viver em situação de ilegalidade.
Esse despreparo causa ainda mais estresse, desamparo, angústia e dependência dos conhecidos, da sua comunidade linguística e cultural. Há, claro, aqueles que se preparam melhor investindo tempo no aprendizado da língua, enfrentando a burocracia para se legalizar quando é possível.
Pode ser um trabalho de Hércules.
Várias histórias aqui contadas se passam num período pré-redes sociais e até mesmo pré-internet. Num tempo em que enviávamos cartas e esperávamos ansiosamente pelas respostas e que, para telefonar, tínhamos que contar os vinténs.
Hoje o mundo é outro, é muito mais fácil mantermos contato com a família e amigos, sem dúvida. O uso dessa tecnologia ajuda a amenizar a saudade e a noção de distância parece diferente, algo impossível de comparar com a daquele tempo.
Os novos imigrantes nunca experimentarão o mesmo sentimento daqueles anos noventa.
Boa leitura! Leila Silva Terlinchamp
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