Poetas do tambor

Por Ricardo Augusto Pereira

Sobre o livro

Após alguns anos pesquisando o tambor de crioula do Piauí e conversando com poetas, tamborzeiros, baiadores e baiadeiras, entrego, com prazer, esse texto: um passeio pela “brincadeira”, do período escravista aos dias atuais, ou desde o começo do mundo.

No início da pesquisa, pretendia entender se o tambor seria um fenômeno recente ou oriundo de outro estado da Federação, visto que pouco conhecido no Piauí.

Encontrar o tambor antes 1888 ─ imaginei ─, o ano da abolição oficial da escravidão, seria uma tarefa árdua, considerando a existência quase exclusiva de fontes orais, de narradores que não teriam como informar sobre épocas tão remotas.

No decorrer do trabalho, a oralidade e a pesquisa documental foram me proporcionado surpresas, compartilhadas com cada leitor.

O texto atravessa a região do tambor, com seus vários municípios ─ no passado, a área de abrangência era muito maior ─ na busca de poetas escondidos para uma parte da sociedade, mas importantes para comunidades rurais, quilombolas, ribeirinhas, de quebradeiras de coco e de pessoas que vivem do duro trabalho da roça e no serviço pesado do tambor.

Tambor que convive com Deus, com São Pedro, com Jesus e com a cachaça; o diabo, sempre afastado com rezas e orações dos tamborzeiros, às vezes é inevitável.

Tambor que possui a alegria da baia nas eiras e a tristeza da lembrança de poetas mortos; a busca de proteção divina e os perigos que envolvem os grandes momentos de confraternização humana; a ausência do Estado e a presença da polícia; o analfabetismo e a poesia; a escravidão e a libertação.

Entrevistando os poetas ─ mesmo seguindo uma temática ─ percebi que a compreensão do tambor passaria por aspectos multifacetados de vidas individuais e coletivas.

O tambor festejou o fim da escravidão e o começo do mundo; envolveu-se em disputas, em rixas e em rachas; foi proibido, expulso de cidades, atacado nos subúrbios, mas sobreviveu nas mãos de pessoas simples, que viram pais e avós baiando e batendo a contragosto das ações do Estado, com a certeza de que estavam sendo abençoados.

Cada entrevista realizada com poetas, tamborzeiros, baiadores e baiadeiras tornou-se uma lição de vida, sobretudo uma lição de resiliência.

São homens e mulheres que amam no tambor a lembrança de pais e avós frequentando a brincadeira; que se interessaram pela “profissão” e veneram seus professores; que aprenderam a conduzir seus conhecimentos sobre o tambor para a vida, e da vida para o tambor.

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