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Poemas para Assistir ao Fim do Mundo

Por Gilberto Arsiolli

Sobre o livro

O livro é movido por uma ideia forte: o “fim do mundo” não aparece como evento único, apocalíptico e espetacular, mas como sucessão de colapsos. Há o colapso da linguagem, o da política, o da vida urbana, o do amor, o da memória e o da paisagem.

Essa pluralização do desastre é o que dá unidade à coletânea. Mesmo quando o tom muda bruscamente — do metapoético ao amoroso, do satírico ao elegíaco, do íntimo ao histórico — o eixo continua sendo o mesmo: como falar quando a experiência já vem fraturada.

A primeira parte é a mais programática. Nela, o poeta encena sua poética como confronto e brincadeira com a tradição.

Drummond, Leminski, Bandeira, Shakespeare, Hesíodo e outros nomes não surgem como ornamento culto; entram no poema como matéria viva, às vezes reverenciada, às vezes ironizada, às vezes mastigada em chave quase antropofágica. O melhor dessa seção é a recusa da solenidade.

Em vez de tratar a poesia como templo, o livro a trata como atrito, conversa, ruído, paródia e jogo verbal.

Essa energia aparece com nitidez em “Poesia Nasce, Brinca, Prevalece, Morre” e “Guacamole em Pedra Dura”, onde o poema rejeita tanto a visão austera da “luta com as palavras” quanto a lógica mercantil que exige apenas choque, víscera e vendagem.

A segunda parte é a mais contundente politicamente.

“Carne preta que passou do ponto” é talvez um dos poemas mais fortes do conjunto, porque transforma a denúncia em forma: desmonta o eufemismo burocrático, ridiculariza o vocabulário estatal e expõe a violência racial sem cair apenas na enumeração indignada.

O poema tem ritmo, sarcasmo e uma agressividade verbal que combina muito bem com o assunto. “Blues de la Luz que Sangra”, ao aproximar Brasil e Gaza, amplia o horizonte moral do livro e insiste numa mesma gramática da devastação.

No centro dessa seção, “Antilírica Canina” funciona quase como manifesto. O cão ali não é apenas figura; é método. O poema propõe uma poética do corpo, do instinto, do uivo, da sujeira, contra a autovigilância narcísica do sujeito contemporâneo.

A oposição entre cachorro e selfie, entre vida imediata e mediação do superego, é uma das formulações mais felizes do livro. O “antilírico”, no fundo, não destrói o lírico: rebaixa-o, suja-o, tira-o do pedestal e o devolve ao chão.

A terceira parte mostra outra face da voz autoral. Em vez do sarcasmo e da pressão política, entram o cotidiano, o amor, a geografia afetiva, a família. Aqui o livro prova que não depende apenas de bravura verbal ou de repertório cultural; ele também sabe desacelerar.

“Ana e o Mar”, “Amanheceremos” e “O Sorriso do meu Filho” têm delicadeza real, sem virar sentimentalismo fácil. “A Pequena Princesa de Coxim” é especialmente eficaz porque mistura humor, ternura, memória local e imaginário literário num registro mais leve, mas não raso.

Já “Subtração e Soma” talvez seja o grande poema expansivo do livro: um fluxo amoroso-geográfico-popular em que a enumeração vira motor afetivo.

A quarta parte é a da memória e da assombração. “A Coruja”, releitura ostensiva de Poe, é uma peça de alto controle formal e imaginativo; ali o livro mostra que também sabe sustentar atmosfera, narrativa e cadência de modo mais concentrado.

“Constance Belmar” e “Empreitada de Caronte” reforçam duas vertentes decisivas da obra: a figura do poeta errante e a consciência ecológica-histórica.

Em “Empreitada de Caronte”, mito, Amazônia, diplomacia, mercado e devastação entram num mesmo fluxo verbal; é um poema excessivo, sim, mas o excesso ali é coerente com o assunto — a expansão predatória, o colapso ambiental, a fala contaminada do capital.

No conjunto, o livro tem uma qualidade rara: nervo. Ele pensa, cita, satiriza, ama, denuncia e rememora sem buscar pureza de tom. Sua melhor forma é a contaminação. Alta cultura e cultura pop, registro culto e fala coloquial, mito clássico e noticiário, regionalismo e cosmopolitismo, português e outras línguas: tudo entra no mesmo caldeirão.

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