Piloto de quadrilha

Por Sérgio Bandeira de Mello Bandeira de Mello

Sobre o livro

Narrado por um ex-presidiário enclausurado num morro da Zona Sul dominado pelo tráfico, o protagonista, a princípio visando às resenhas para abreviar a pena, apaixona-se por romances e biografias.

Responsável pelas estantes à disposição dos detentos de Bangu, ao sair, torna-se funcionário da biblioteca da comunidade. Com bons artigos publicados no Facebook, ele é desafiado pela mulher, estudante de Psicologia, a escrever um conto para o concurso da Livraria Lello, na cidade do Porto.

Como item obrigatório, a obra deve contemplar algo relacionado aos novos padrões impostos pelo Covid-19. Coberto pelo pseudônimo Roberto Carlos Senna, Beto sustenta que a quarentena é como uma cadeia VIP: sem hora para revista de celular, sem medo de morrer dormindo ou de estocada na cozinha.

E com a regalia da visita íntima todo dia e a qualquer hora.

A princípio sustentados pelo corona-voucher, auxílio àqueles que não possuíam emprego fixo, o baque foi grande quando o subsídio caiu à metade, razão pela qual Beto aceitou a proposta do amigo Dimenó, parceiro desde os tempos de penitenciária.

Ótimo piloto, ele faria o trabalho de formiguinha de um estabelecimento denominado Delícias do Formigão.

Pistolas em lasanhas e revólveres em moquecas de peixe com molho de munição eram exemplos do cardápio real da empresa de fachada, serviço de delivery de armas travestido de comércio de iguarias congeladas.

A ponto de a feijoada completa carregada no baú refrigerado da moto comportar um fuzil desmontado.

Convocado apenas para as entregas especiais, Beto resolveu concorrer com o episódio que marcaria a sua vida: o sequestro relâmpago de um romancista, que ele próprio reputa como caso de síndrome de Estocolmo às avessas. A trama congrega o pavor e o cômico da noite de 7 de julho de 2005.

Pois incentivado pela paralisação quase total das atividades econômicas no Rio, o conto original estende-se a outras memórias, entre as quais a sua prisão em flagrante por envolvimento como motorista em um assalto a uma joalheria, em cuja fuga haveria troca de tiros com vítima fatal.

O longo encarceramento provocaria a sua separação da mãe do seu único filho, Júnior, rapper de metrô, e pai de seu neto, JJ.

Já no presente, surpreendido entre a violência da milícia que domina a Zona Oeste carioca e o ‘movimento’ que comanda a sua comunidade, o vovô garoto terá de se desdobrar para não dançar.

Arrolado em processo por lesão corporal dolosa por atropelamento; vítima de tentativa de execução; cúmplice de acidente provocado em perseguição motorizada, sua vida muda até ser sequestrado ao volante, depois de envolvido em um golpe de pirâmide financeira por um hacker, aplicado em bispos e pastores infiltrados na política carioca.

Na condição de vítima, Beto completa, após 15 anos, o ciclo iniciado no crime cometido contra o romancista, para quem abro aspas: “A partir do Alto da Boa Vista, volta e meia estancávamos.

Numa parada, surgiram do mato três homens armados, um na frente do carro, um na minha janela e outro na do carona. Pensamos que queriam o Meriva; tentamos saltar, mas, para desespero nosso, era um sequestro. Se relâmpago ou não, apesar dos raios iluminando a chuva, era matéria fora da nossa alçada.

Com o cano de um revólver na cabeça, fui empurrado para o banco do carona, abandonado instantes antes por minha acompanhante, sentada no assento de trás, entre os dois pivetes.

Já o rapaz do volante, ao tentar fazer a manobra para fugir do trânsito, não soube engatar a marcha à ré, o que me fez usar a mão esquerda para resolver o problema.

Destaco o início do meu diálogo com o autointitulado piloto de quadrilha, mesmo tendo o jovem mostrado falta de intimidade com a alavanca de mudança de um carro em perfeitas condições.

As palavras seguintes são fundamentais para dar a ideia do pânico pelo qual passamos, bem como para ilustrar os trechos de comédia que viriam mais tarde. “Se é polícia, vai morrer agora.” “Sou engenheiro, aqui está o meu crachá.” Segurem-se; é com emoção!

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