Perspectivas opostas: contos e crônicas

Por Ariel Yoshida

Sobre o livro

Nesta obra toda história traz no mínimo um ponto de vista diferente. “Perspectivas opostas” é uma mescla de enredos variados – ora tenros, ora cruéis -, com peculiares devaneios e, vez ou outra, uma pitada de humor.

Ao todo são 82 textos.

Um dos contos: “O policial youtuber”

Olha só que interessante! O Toninho da Pistola Justiceira. Novíssima celebridade mundial. O policial mais famoso da internet no momento. Conquistou milhões de telespectadores. Ele grava suas missões diárias. Ele brilha algemando os meliantes.

Vez ou outra fuzila um bandido e depois, prestando continência, faz uma dancinha para a câmera. O sapeca tem até um jingle próprio. “Toninho vai te pegar, trombadinha não vai restar. A Pistola Justiceira vai te arrebentar”.

Um expert em fofoca, o Cléo Dias, já andou dizendo por aí que nas próximas eleições o pequeno Toni será candidato a governador de Minas Gerais. Confesso que esse personagem é bastante cativante e convincente. Homem sonso, falso ao extremo!

Uma pena que nenhum de seus fãs saiba que há seis anos ele esteve envolvido no meu sequestro. Manteve-me em cativeiro por 2 semanas, fazendo comigo o que de mais horrendo se poderia fazer. O resgate custou um empréstimo que levou a humilde empresa de meu pai à falência. E se soubessem?

Alguém se importaria com a verdade?

Após “O policial youtuber” há o texto “O sequestrador youtuber”.

Trechos da crônica “Revisar textos”:

Para que tanta revisão? Não seremos eternos, logo voltaremos a ser pó. Buscamos perfeição à toa. Revisitei ontem um caderno meu, do ensino fundamental. Tanta saudade senti. Eu fazia tanta coisa errada e nem me preocupava.

A nostalgia me fez perceber que olhar para trás ilumina onde antes era interrogação, e os erros ficam explícitos. Para que revisar as coisas? Só para notar quão falho já fomos. Autodepreciação da pior espécie.

Sempre haverá um trecho digitado errado, uma ortografia falha, um episódio de remorso; um capítulo inteiro que soara alegria tornar-se-á elegia. Muita memória é enganosa. Digo ter saudade da infância, mas minha infância nem tão feliz era. Eu vivia querendo ser adulto para não sofrer mais bullying.

Sorria algumas vezes, mas em tantas outras me desesperava. Perdi mesmo foi o tempero inocente. A revisão dá saudade da inocência. Escrevíamos sob a crença de sermos lidos. (…) Quanto júbilo, por medo, deixei de viver? Quantas batidas apaixonadas o coração amedrontado deixou de bater?”

E dessa forma o livro prossegue, trazendo situações verossímeis e também casos hiperbólicos.

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