Páginas verdes de uma imprensa marrom

Por Vinícius da Silva Ramos

Sobre o livro

O presente livro de Vinicius da Silva Ramos representa bastante bem a atual “fase” de trabalhos acadêmicos voltados para a análise aprofundada do Integralismo.

Depois de um longo silêncio da historiografia brasileira e da solidão dos trabalhos tornados clássicos – o “quadrívio” formado por Hélgio Trindade, José Chasin, Marilena Chauí e Ricardo Benzaquém – a universidade, agora através dos seus cursos de pós-graduação e com metodologias especializadas e quadros teóricos sofisticados, voltou-se, enfim, para a destrinchamento da mais coerente e longeva corrente do pensamento de Extrema-Direita no Brasil.

A coerência “orgânica” do Integralismo, a sua condensação na Ação Integra-lista Brasileira/AIB, o papel fundamental de Plínio Salgado (1895-1975) e de suas gran-des estrelas, como Miguel Reale e Gustavo Barroso, antes e depois da Segunda Guerra Mundial – quer dizer, antes e depois do impacto do fascismo real e do Holocausto – tornaram-se, hoje, um tema relevante e nobre no debate acadêmico brasileiro.

No âmbito da ANPUH e ANPOCS, em seminários e simpósios específicos, o In-tegralismo e seus aspectos centrais – a proposta autoritária de um projeto nacional, a questão do antissemitismo, o papel da Igreja e da Família na Sociedade Brasileira, tornaram-se objeto de estudos, dissertações e teses.

Outros temas, como as questões de gênero, a educação, os jovens, as relações com as empresas ainda estão começando a ser estudadas, o que mostra a imensidão da tarefa pela frente.

Vinicius da Silva Ramos escolheu um desses “continentes desconhecidos” para desbravar: a recepção do Integralismo no espaço público entre 1933 e 1938 através das páginas de dois jornais importantes da capital federal: “O Jornal” e “O Correio da Ma-nhã”.

Através de tais “páginas verdes”, publicadas por jornais escolhidos exatamente por posturas ideológicas diversas, o jovem pesquisador busca a construção do que deno-minou, com umaconstrução teórica bastante bem elaborada, de “pacto tácito”, entre editor/redator e o público, estabelecendo a existência de um “auditório”, núcleo de uma esfera pública, já consolidado na República, malgrado o caráter ditatorial do regime político então existente.

A escolha do Integralismo, e a originalidade da temática recortada por Vini-cius da Silva Ramos, é de extrema relevância para os nossos dias, inclusive suas estraté-gias de uso da mídia.

Mesmo guardando as proporções da mídia tipográfica dos anos de 1930 e os modernos meios digitais de hoje, podemos ver nas páginas do presente traba-lho, a relevância da propaganda e do uso da mídia, aliás eixo central da atuação de todos os fascismos.

O trabalho de Vinicius Ramos, por fim, lança mais luz sobre esta potente e onipresente corrente do autoritarismo brasileiro, hoje rediviva em vários movimentos unificados em torno de proposta antidemocrática, antipopular e anti-igualitária que tanto ameaça a República.

Conhecer suas origens e sua trajetória, através das páginas deste trabalho, é – para além de um brilhante trabalho acadêmico – um esforço de cidadania.

Francisco Carlos Teixeira Da Silva Professor Titular de História /UFRJ/CPDA/UFRRJ

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