Sobre o livro
A proposta desse livro de congos é absurdamente distinta de todos os outros livros de contos do autor. Livro de contos com intenção muito além do saudosismo, traz mais uma coletânea soberba da criação desse contista e romancista, poeta incansável.
O livro de José Humberto Henriques que mais trabalha e contém nomes de criaturas, personagens qualificadas, é esse. Então, a partir daí, a constatação de que é um livro que busca entender e abrir as portas dos espíritos para o conhecimento humano.
Não bastasse tudo que já produziu, J Humberto Henriques mantém-se na construção de contos exemplares. E uma coisa interessante, uma vez questionado sobre esse livro, Henriques o folheou e parece desatento. Falou. Eu nem sabia que tinha escrito esse livro. Não me lembrava dele!
Até hoje ninguém sabe se isso foi um chiste ou não foi.
Esse tipo de título é muito persistente nas obras de J Humberto Henriques. A alusão aos tempos dos velhos quintais, aqueles mesmos cantados nas canções de Coromandel pelo poeta popular Goyá. Aqueles mesmos que jogam galhos de abacateiros sobre os muros de Abadia dos Dourados ou de Iraí de Minas.
Esses quintais que fizeram parte da formação e hierarquia de todo garoto nascido ainda com a condição de acato. Quando tudo era muito mais simples e ainda havia armadilhas para pegar sabiá-laranjeira à sombra dos arvoredos frutíferos de quintal.
Como acontece no romance Horda das Mangas Maduras, de caráter nitidamente erótico, sem ser obsceno em sua totalidade. Ou como também acontece em todos os livros do autor que têm o Cruzeiro da Fortaleza como pano de fundo. Assim é o caso de A Serpente e o Gavião, romance considerado obra-prima.
O autor aprecia em demasia esta memória que se esvai com o aumento da população do globo terrestre. Para achar lugar para se fazer casas de alvenaria, as famílias aumentando seus rebentos, é preciso sacrificar os velhos quintais.
À medida que a população cresce de forma assustadora e geométrica, a terra diminui e passa a ser artigo de luxo. Terra no sentido de canteiro ou de cepa onde deixar a semente crescer. Cadê os quintais daqueles dias? Somem na projeção imediata das dezenas de anos.
Lá se vão eles, somem na exploração urbana que concentra de maneira leonina a contravenção de tudo que possa valer dinheiro. Os olhos dos depredadores crescem demais à vista de uma venda qualquer. O mundo fica resumido. Os abacateiros vão ao chão e viram lenha sem valor.
Não obstante, a memória que prevalece dentro desse resumo de antigamente, tudo é motivo para que Humberto Henriques traga ao conto esse itinerário que um dia ele observou entre aqueles que lho conviveram na pequenina Brejo Bonito e Patrocínio, tudo em Minas Gerais.
Em seus livros, ou Minas Gerais ou Goiás gritam com atitude de bem-te-vi. Uma atitude clara, ensolarada e cristalina.
Esse resgate não deixa de ser nostálgico, embora o título apenas não sirva para esclarecer a qualidade inenarrável desses contos produzidos por um escritor cuja genialidade salta aos olhos.
Se não se lembrava mais desse livro soberbo, somente porque deve ter mergulhado em outras criações e se fez de mouco.
Esse trânsito de Humberto Henriques entre Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso garantiu a ele o título de escritor goiano indexado. Mineiro de nascimento, traz Goiás na conta de magia. Apesar de ter nascido em Brejo Bonito, em Minas Gerais, Henriques dedicou a sua obra mais amável ao estado de Goiás.
E faz questão absoluta de não negar esse pormenor. Por isso, esse complemento telúrico entre a sua obra poética e em prosa. Quem ler Constelações e Porcos para o Comendador vai entender isso muito bem.
O livro Cora Coralina e os Becos Recortados, um livro de poesia emblemático, trata de Goiás Velho e da poetisa homônima. É também um compêndio que trata dos quintais. Quem lê fica com a impressão que talvez esses sejam os últimos quintais daqueles dias.
Boa parte da obra do autor, seja em verso, seja em prosa, escarifica esses fundos de quintais, traz seja um
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