Sobre o livro
Orelhas de Van Gogh
Há poetas que enfaticamente se entregam à procura de novos rumos, preocupando-se com a técnica de impacto para assombrar e obter adesões instantâneas.
Muitos encontram a estreita via, o atalho ainda que lhes falte a enunciação poética como uma constante e uma necessidade, até como agregação à memória coletiva. Descobrem o processo sem desenvolver a linguagem estabilizadora de um dizer poético convincente e eficaz. Falam em romper com a tradição, mas não definem a que tradição pretendem opor-se, pois há tradição para tudo, inclusive a tradição de ruptura.
Silvio Piresh projetou-se inicialmente pelo experimentalismo de choque, a que não faltou forte inspiração satírica.
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Puro artesanato é a contrafacção que fez de um maço de cigarros, valendo-se de uma expressão publicitária com que os veículos de massa nos bombardeiam. Fez a “poesia king size”, com “20 poemas enrolados.”
Agora Silvio Piresh, com “Orelhas de van Gogh” só no título indica o inusitado: faz do novo um encontro natural, não uma astúcia para chocar.
Seu universo poético ora encerra marcante faixa lírica, ora compreende brusca apreensão do social. Tudo numa linguagem desnorteante, assinalada por elipses, imagens cruzadas, ideias repentinamente emergentes, iluminações desencontradas, num jogo levemente surreal ou mesmo caleidoscópico. Um longo fio confessional liga o volume de ponta a ponta, as 348 páginas de poemas.
Nada, entretanto, dá a impressão de um ludismo fácil ou espontâneo. Tudo reflete, antes, árdua construção, fruto de conquistado domínio da palavra. A boa gramática é uma de suas forças.
Não faz um discurso transparente.
Antes se torna às vezes opaco, abrigando-se no hermetismo. Mas pode-se extrair do conjunto o sumo de uma elegia existencial, de um erotismo fosco ou de um protesto político/social. Mas sem panfletagem ou apelo sentimental.
“Orelhas de van Gogh” confirmam que a vera poesia é a instância da metáfora. Basta que se abra o livro ao azar: “De tarja negra nos olhos a noite/e seus gatilhos/a disparar pelas pernas o coração.” (p.326)
O depoimento existencial atrai o leitor a cada passo, pelo seu cortante pessimismo: “Quanto mais se vive/ mais a memória parece recuar/ Para a perda.” (p.339)
A remissão para a infância constitui um dos fatores mais densos de verbalização, no interior do processo de convergência do drama existencial com a palavra: “Ruas de infância, perdido paraíso/ labirinto de que saímos/ Para outros labirintos, íntimos.” (p. 104)
Não esquecer a visão “moderna” de Silvio Piresh, a angulação com que contempla a paisagem física e humana, aliada ao gosto do paradoxo e da ironia: “Cemitério de neon, inscrições, cidade./ Céu de cinco estrelas já” (p.149)
O lirismo de Silvio Piresh está impregnado de categorias pós-modernas. O grotesco, por exemplo.
De vez em quando, sua metáfora dispara por caminhos arrevesados: “verdes arbustos expectoram pardais” (p.111); Mais adiante: “E os direitos civis das pombas/ a sujar os bustos da memória.” (p.170); O poema da p.296 ilustra bem a articulação do grotesco.
Mas “Orelhas de van Gogh” são sobretudo um livro sério. Testemunham o encontro da vocação com o preparo. O tom crepuscular por vezes se infiltra no meio da alegria das metáforas e do gume da sátira. As duas últimas páginas, por exemplo.
Ao tecer o livro, Silvio Piresh oferece agudas reflexões sobre o fazer poético: “O poeta destece a rede da noite/ e sempre acorda os galos” (p.341), pois tem consciência da função auto-fundadora do tecido verbal: Sonhos e ilusões, é certo, caem/ feito moscas/ Mas eu ainda/ sou aranha de mim,/ que aranha maior entretece” (p.53)
Fábio Lucas
Fábio Lucas é escritor, crítico, membro da Academia Paulista de Letras e Presidente do Conselho da União Brasileira de Escritores. Ex-Diretor do Instituto Nacional do Livro. Apontado como um dos mais importantes críticos e conferencistas internacionais de literatura brasileira.
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