ÓPERA DO ABISMO

Por IVONE DAMARIS

Sobre o livro

A publicação deste Ópera do Abismo revela a personalidade poética e a poesia de Ivone Damaris.

A escrita de Ivone muitas vezes aproxima formalmente a prosa do verso, razão pela qual este campeia solto, sem preocupações com os rígidos cânones da metrificação e da rima que engessam a criação artística e frequentemente centralizam a atenção de quem escreve, em detrimento de conteúdos mais ricos e mais exploráveis.

A poesia moderna há muito abdicou dessa rigidez em favor de uma concisão formal, valorizando a palavra nos seus múltiplos significados, relações e ilações. Com a linguagem solta Ivone parte em busca de mecanismos da natureza e dos insondáveis segredos das emoções.

Há alguma coisa de tátil, de resvalante nesses poemas, como se Ivone se servisse das antenas dos sentidos físicos e dos meandros enigmáticos do alumbramento emocional para captar ou tentar explicar uma lógica num universo ilógico, cheio de encontros e desencontros, ânsias, insatisfações, mas também bastante satisfatório.

Ivone busca inteirar a natureza – muitas vezes presente como metáfora de uma realidade interior, invocando o sol, a casca das árvores, a água, o vento, o peixe, o pássaro, a flor, esses elementos materiais que mobilizam a atenção humana, procurando através de essa evocação perscrutar os sentimentos que a impulsionam para elaborá-los poeticamente.

Não resta dúvida que a sensibilidade feminina é um recurso eminentemente perceptível na delicadeza com que procura a verdade dos seus sentimentos e sensações e objeto com quem intercambiá-las.

Os temas essenciais de seus poemas é o da relação amorosa em todas as suas cambiantes: físicas, idealísticas, desejáveis, factíveis, impossíveis…

O ente poético procura sua alma gêmea ( investiguei seus vestígios de quimeras/ E a vida todo permaneci a sua espera) e nessa busca onde nada pesa/ nada pousa ás vezes se frustra ( perdi o coração/ Por uma miragem) o mesmo se reconhece e se encontra nesse campo fluído entre a imaginação e a realidade.

A realização acontece e a busca cessa (sou toda entrega/Sou toda sua!). É nesse entrecho que Ivone pervaga poeticamente. O encantatório comparece num vislumbre de poentes coloridos, de mares calmos, aqui ou ali um vulcão desmentindo essa aparência tranquila.

Porque na verdade, um poeta não pode ser tranquilo quando pretenda criar. O processo de criação é um desafio e quanto maior o entrave, maior a possibilidade de êxito para o escritor.

É de se esperar mesmo que a flama interna de um vulcão fustigue e inquiete o poeta, pois só com o fustigar que exige expressão verbal, seja em prosa ou em verso, é que se pode, realmente, criar os textos literários.

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