OMISSÃO E RESPONSABILIDADE: ENSAIO SOBRE A CULPA

Por EMÍLIO GUTIERREZ SOBRINHO

Sobre o livro

Na tradição ocidental, a omissão raramente foi tratada com a mesma gravidade que a ação.

No entanto, em Omissão e Responsabilidade: Ensaio sobre a Culpa, o autor opera um deslocamento conceitual e espiritual: da negligência para o drama ético, da norma para o abismo existencial, do silêncio para o grito ético abafado.

O resultado é uma obra densa, elegantemente construída e profundamente inquietante, que convida o leitor a um percurso de autoconhecimento e responsabilidade.

Dividido em trinta tópicos organizados em cinco capítulos — “A arqueologia da culpa”, “A teologia do silêncio”, “A omissão em juízo”, “Confissão e resgate” e “Por uma nova ética” — o livro transita entre direito, teologia, filosofia e psicanálise.

O autor não se contenta em conceituar a omissão como lacuna normativa ou desídia jurídica: ele a lê como sintoma da contemporaneidade, como sombra projetada pelo narcisismo, como falência da escuta, como recusa de alteridade.

Se nas primeiras seções o leitor é introduzido ao “pecado por omissão” nos escritos patrísticos, ao “não agir” como omissão de cuidado ou presença, ao “deixar acontecer” como pacto tácito com a injustiça, o tom se aprofunda na análise jurídica e psicanalítica, revelando que o silêncio omissivo também se dá no foro íntimo, no ego que se recusa à escuta e na consciência que tolera o insuportável com a máscara da neutralidade.

O autor exibe domínio técnico ao tratar da omissão no processo penal e civil, mas sempre indo além: seu objetivo não é apenas informar, mas convidar à conversão interior. A noção de “culpa por omissão” é ressignificada, ganhando contornos trágicos e poéticos.

Ao explorar o conceito cristão de confissão e o papel do perdão diante da falha de agir, o texto adquire força espiritual — e não religiosa no sentido estreito, mas ontológica, quase litúrgica.

O ápice do livro talvez esteja nos capítulos finais, em que a máxima socrática “Scito te ipsum” — conhece-te a ti mesmo — é proposta como remédio à omissão, e a ética da responsabilidade, tal como formulada por Hans Jonas, é contraposta à tradição da culpa individualista.

Abelardo, paradoxalmente, é chamado a testemunhar ao lado de Jonas, como quem diz que toda responsabilidade verdadeira nasce do amor e da consciência que não se omite.

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