O Trabalhador e o Busão
Por Sérgio Ciríaco de FreitasO Trabalhador e o Busão O sol ainda nem tinha dado as caras quando o despertador de Zé Carlos tocou. Eram quatro e meia da manhã. Ele se levantou devagar, tomou um café preto forte e saiu de casa com a marmita na mão. Do lado de fora, o vento da madrugada cortava o rosto, e as luzes amareladas dos postes desenhavam sombras nas ruas da comunidade. No ponto de ônibus, já havia uma fila de rostos cansados. Era sempre assim: gente boa, gente batalhadora, gente que carrega o país nas costas e ainda pede desculpa quando o ônibus atrasa. O coletivo chegava lotado, com as portas rangendo e o motorista visivelmente irritado. Mesmo assim, todos se espremiam para caber, porque não havia outra opção. A viagem até o trabalho durava quase duas horas, com paradas intermináveis, calor e empurra-empurra. O povo já nem falava muito — apenas olhava pela janela, cada um preso em seus pensamentos. Mas naquele dia, Zé Carlos não conseguiu se calar. — Sabe o que é pior, gente? — disse ele, levantando a voz. — A gente reclama, mas continua votando nos mesmos. Alguns riram, outros balançaram a cabeça em concordância. A senhora ao lado respondeu: — Meu filho, prometer é fácil. Cumprir é que é difícil. Zé Carlos pensou naquilo o dia inteiro. À noite, conversou com os vizinhos e teve uma ideia: reunir a comunidade para conversar sobre política de verdade , sem enrolação. No sábado seguinte, montaram umas cadeiras na praça e chamaram quem quisesse participar. O povo foi chegando devagar, com curiosidade e esperança misturadas. — A gente precisa parar de achar que política é coisa dos outros — disse Zé Carlos, olhando para todos. — Se o ônibus atrasa, é culpa de quem não fiscaliza. Se o transporte é ruim, é porque a gente não cobra. E se nada muda, é porque a gente se cala. As reuniões se tornaram semanais. Cada encontro trazia mais gente, mais ideias e mais indignação transformada em ação. O grupo decidiu que nas próximas eleições fariam diferente: não iriam se dividir entre promessas vazias , mas escolheriam um representante do próprio povo , alguém que conhecesse de perto a dor de acordar cedo e enfrentar o busão lotado. O movimento cresceu, ganhou força, ecoou nos bairros vizinhos. Quando chegou o período eleitoral, a comunidade estava unida como nunca. O resultado veio como um sopro de esperança: o candidato da periferia venceu, e Zé Carlos foi eleito vereador. A mudança não aconteceu da noite para o dia, mas veio — real e concreta . Novas linhas de ônibus começaram a circular, o número de veículos aumentou, e os horários passaram a ser respeitados. Zé Carlos fez questão de acompanhar tudo de perto. Mesmo eleito, continuava pegando o mesmo ônibus de antes. Os passageiros se espantavam: — Vereador, o senhor ainda anda de busão? Ele sorria e respondia: — Claro! É daqui que vem a força pra continuar lutando. O tempo passou, e a comunidade floresceu. Os trabalhadores agora tinham transporte digno, mais tempo com suas famílias e uma certeza: quando o povo se une, a cidade anda pra frente. Numa manhã de segunda-feira, com o sol nascendo e o ônibus vindo pontual, Zé Carlos olhou pela janela e pensou: “A gente passou tanto tempo sendo passageiro… Agora, finalmente, estamos dirigindo o nosso próprio caminho.” ✨ Mensagem final mostra que o poder está nas mãos de quem acorda cedo, pega o ônibus e faz o país girar. A mudança começa com a consciência de que reclamar não basta — é preciso participar, votar com sabedoria e cobrar com coragem. 💬 Quando o povo se organiza, até o ônibus da vida chega no horário certo.
Características do eBook
- Autor(a): Sérgio Ciríaco de Freitas
- Categoria: Fantasia, Horror e Ficção Científica
Amostra Grátis do Livro
Faça a leitura online do livro O Trabalhador e o Busão, escrito por Sérgio Ciríaco de Freitas. Esse é um trecho gratuito disponibilizado pela Amazon, e não infringe os direitos do autor nem da editora.



