O Sonho de Cipião

Por Marco Túlio Cícero

Sobre o livro

Vivemos na era da pós-verdade, onde a Teoria da Terra Plana encontra seguidores e espaço no debate público impulsionado pelas redes sociais. Somente por este motivo a leitura de “O Sonho de Cipião” já seria justificada.

O relato de Cícero, jurista, político e filósofo da Roma Antiga, foi escrito entre 54 e 51 a.C., compondo o Sexto Livro de sua obra prima “Da República”, num ambiente dominado pelo paganismo, 1.500 anos antes de Copérnico apresentar a Teoria Heliocêntrica, pressupondo que os planetas eram esferas que orbitavam em torno do Sol.

Quando o jovem Cipião, a serviço militar pela Quarta Legião, chega ao continente africano, é recepcionado por Masinissa, rei da Numídia e amigo de sua família.

A primeira noite de sono após o banquete testemunhado por Lélio revelaria uma viagem transcendental até um ponto elevado dos céus, onde o protagonista se encontra com seu avô, o lendário general Cipião Africano, e seu pai, Paulo.

Eles apresentam a configuração do universo composto por planetas esféricos e estrelas, numa concepção que contrariava o próprio poderio militar de Roma, em função da relativa pequenez do território conquistado perante a extensão da Via Láctea.

Cícero valeu-se do “Sonho de Cipião” para justificar os pilares do sistema republicano que defendia, que deveria ser composto por cidadãos virtuosos e capazes de serem úteis para os demais, compreendendo que a passagem deles pela Terra seria transitória, uma vez que vieram dos céus e para os céus voltariam, assim que suas almas se libertassem de seus corpos, o que nem todos seriam capazes de fazer diante de suas entregas aos vícios.

Este embate ético, retratado de forma alegórica pelo pintor renascentista Rafael por volta de 1.504 – e que integra a capa desta edição – seria observado por um Deus Supremo, o que faz do clímax da obra “Da República” um documento de grande repercussão entre os estoicos e cristãos que estudaram os textos clássicos ao longo dos séculos, encontrando nas palavras de Cícero elementos do platonismo e do pitagorismo, cuja fusão pode ser reconhecida na gênese da Cultura Ocidental.

“O Sonho de Cipião” foi escrito originalmente em latim. Porém, nesta tradução para a língua portuguesa, usamos como fonte uma versão em inglês proposta por Andrew P. Peabody (1811–1893), professor em Harvard.

Nós preservamos a ordem dos parágrafos tal qual como publicados no século XIX e identificados por algarismos romanos, mas separamos algumas orações em linhas espaçadas para facilitar a compreensão, por exemplo, dos diálogos entre Cipião, Paulo e Africano, por parte dos leitores modernos.

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