O Quadrado da Palavra em Abdala Taiaégua
Por José Humberto da Silva HenriquesSobre o livro
Humberto Henriques nos surpreende mais uma vez com um livro enigmático e absurdamente real. Um livro de fato colossal. Traz o árabe Abdala, apelidado o Taiaégua, para o cenário da literatura universal.
É uma personagem com comportamento muito particular, ainda com os resquícios de todo o Oriente enfiado no sangue e em suas maneiras de se mostrar diante do mundo. Esse é Abdala Taiaégua. Entretanto, Abdala é um adaptado ligeiro ao ambiente ocidental.
Quando li esse livro, percebi que a personagem traz todos os sinais de uma família de árabes e seus trejeitos, suas amarguras e seus modos de contemplar o mundo de uma maneira distinta.
Esse Abdala é a contemplação exata de como o Brasil recebe seus pares, aquelas criaturas que chegam de lugares inóspitos, longínquos, inacreditáveis e logo em seguida todos estão integrados e a receber os apelidos mais bizarros que podem ser imaginados.
Abdala é, portanto, o nome delicioso das Arábias, o nobre que quer ser respeitado e tem um nome a zelar. E o Taiaégua já fica por conta da esculhambação e do temperamento ocidental que se imiscui em vida desse cidadão e de toda a sua ascendência mais imediata.
Esse livro, O Quadrado da Palavra de Abdala Taiaégua, juntamente com A Fortuna Desaforada de Quinzão de Castro, Certos Sigilos da Rua Krüger, Perfídia e Uno Tango e Trovões Nascidos ao Norte, compõem um arsenal de perfeição romanesca.
Esses cinco livros, agindo cada um de forma independente, conseguem traduzir espacialmente uma cidade sobre a face desse mundo. É estupendo o modo como o escritor constrói esse mundo. Uma cidade fictícia com todas as características de um mundo real.
Henriques passeia entre todas as camadas sociais e se enovela com todos os tipos psicológicos imagináveis. Com isso, a ambientação desse mundo é móvel. E Abdala surge no romance não como o sírio ou libanês rico de nascença.
Mas como aquele garoto que se misturava com os demais, com aquelas de sangue ibérico, e saíam por aí a chafurdar nas delícias promiscuas de um mundo que não pode ser negado. Esses livros são maiorais.
E de uma maneira que beira a situação de Gabriel Garcia Márquez, o romancista mostra que esse mundo é deveras uma alucinação que existe sob mais de cinco dimensões.
Dizer assim, as dimensões que estão até mais além do simples sistema desse mundo, o quântico que deve ser pensado e obedecido segundo a articulação de tempo e espaço.
Então, esse livro, ajuntado aos demais, perfaz um estudo sistemático à moda da Comédia Humana de Balzac, de uma cidade com critérios de ficção pura, mas que bem poderia estar encaixada no coração de qualquer memorialista brasileira e suas delícias relembradas. Romances com trajes cômicos e trágicos acentuados, assim como um sítio se forma e vira tema urbano.
Soberbo romance. Foi assim que foi definido pelo Professor João Lenis. Logo na introdução, Humberto Henriques justifica: Toda ficção cá esboçada não dita uma única palavra real ou sujeita a um elo com algo que não seja a mais pura imagem da imaginação.
Ficção garante a impunidade entre a criatura, a criadagem e a criação caricata. Isso já faz deduzir a força desse texto. Abdala é retirado do povo, desse misturado que acontece no Brasil, gente vinda de todas as partes do mundo.
Acomodados como ninguém mais, os árabes se estabeleceram de uma maneira telúrica por aqui. Então, suas crias, as gerações seguintes, brasileiros da mais pura jaça, ajudaram a construir as anedotas e as passagens mais alvissareiras de um mundo sem fim.
Abdala Taiaégua circula por aí, entre ruas de cidades pacatas, como um verdadeiro cidadão, com todas as divisas que essa urbanidade possa proporcionar. O romance em causa é espirituoso, cheio de bordões e salamaleques, da forma como seria mesmo esperada para a aclimatação e simpatia dessa personagem.
Humberto Henriques é versado na língua árabe, alfabetizado nela. Tem apreço especial por esse povo, embora não tenha sangue do deserto. Na criação desse romance, usa a banda doméstica da vida do
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