O Peso dos Dias

Por B. R. Sousa

Sobre o livro

Capítulo 33

Mateus não respondeu imediatamente à pergunta de Clara. O seu olhar desviou-se para o lago, para os patos que deslizavam na água com uma calma que contrastava de forma tão gritante com a turbulência que ele sentira durante tanto tempo. Deu um pequeno sorriso, o primeiro sorriso genuinamente leve que ela alguma vez lhe vira; um sorriso que não era uma defesa, nem uma máscara, apenas uma expressão de paz.

“E agora,” disse ele, a virar-se de novo para ela, o seu olhar firme, “a guerra acabou. Talvez… talvez agora tenhamos um armistício. Uma trégua.” Ele fez uma pausa, o peso de cada palavra a assentar entre eles. “E talvez na trégua, a gente tenha o bastante. Só para o amor.”

Não era uma promessa apaixonada. Era algo melhor. Era uma avaliação honesta, uma hipótese baseada em novas e melhores circunstâncias. Clara sentiu o último nó de tensão que nem sabia que ainda carregava a soltar-se no seu peito. A palavra “talvez” era a palavra mais honesta e esperançosa que ele lhe podia ter oferecido.

Ele não disse mais nada. Apenas se levantou, lentamente. Estendeu-lhe a mão, não para a puxar, mas como um convite. Clara aceitou-a. A sua mão estava quente, os calos familiares, mas o aperto era suave.

Ela levantou-se também. Ficaram de pé por um momento, a olharem um para o outro, o sol de outono a filtrar-se pelas árvores.

Começaram a caminhar, a sair da sombra da árvore para a luz do sol. Não havia a urgência do passado, a necessidade de encontrar um refúgio rápido antes que a próxima crise os atingisse. O passo deles era lento, sincronizado.

O som da cidade à sua volta – o riso de uma criança, o toque distante de um sino de igreja – era a banda sonora para o seu novo silêncio, um silêncio que já não era sobre o peso, mas sobre a partilha de uma calma recém-descoberta.

Falaram de coisas pequenas. Do filme que ele vira com a filha. Do livro que ela estava a ler. De qual era, afinal, o melhor café daquela cidade. Eram as conversas banais e preciosas que as suas vidas anteriores nunca lhes tinham permitido ter. Eram as conversas que construíam uma ponte, não para fugir de uma guerra, mas para explorar um tempo de paz.

Não havia promessas, não havia planos grandiosos. Havia apenas o ritmo dos seus passos na gravilha, um som simples e constante. E pela primeira vez, não era o peso dos seus dias que os unia, mas a leveza de um futuro por escrever. Começaram a caminhar, lado a lado, sem pressa, em direção a uma tarde que era só deles.

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