O LIVRO AZUL

Por Elro Masullo

Sobre o livro

Ao receber das mãos de um desconhecido um livro azul escrito em caracteres han, subdividido em dois volumes, o mestre-mor do templo de Taga, na China depois do império, o guardou intocável, por anos.

Procedeu deste modo em respeito à obra alheia; mas, como seu suposto dono, mentor ou guardião, não aparecera para que lhe fosse devolvido, resolveu tomá-lo em leitura sem muito interesse.

Porém, o mestre logo se alegrou, depois sofreu, e pouco tempo se passou para encontrar utilidade para o livro que continha histórias e espaços em branco. Seus autores seriam vários, de diferentes regiões; dedução feita após examinarem as formas com que foram escritos os anagramas.

Realizada a leitura inaugural, na presença de todos os monges, pouco a pouco, viram nascer o interesse pelas histórias ali encontradas e pelas inspirações que causaram.

A respeito do destino do livro, anos e anos mais tarde, constataram a intenção do desconhecido, porque a guarda temporária destinada ao templo se tornara definitiva. Esse foi o contexto que permitiu serem desenvolvidas as três sequências de histórias que compõem o romance.

Elas acontecem em uma instância à parte dos desejos habituais, tomando rumo próprio e obedecendo, se é que se pode falar assim, a um caminho que pertence às atitudes da época e aos valores, certos ou não, de nossa era corrente.

Como levam em conta os valores emocionais, se pode compreender, a partir daí, o trabalho das culturas em lidar com as deformações de caráter do indivíduo.

O livro serve de alento ao leitor interessado em certas ações misteriosas da alma humana, além de compor episódios de amor à reflexão e à existência.

Alguns relatos da inteira história.

O lago – Homem tenta sair a pé das águas de um lago e não consegue; mesmo fora, tem a estranha certeza de que ainda se encontra envolvido por elas.

A linha – Um monge, inventor de histórias em forma de metáforas sonha com uma linha abstrata, enigmática, cujos poderes o dominam e regem sua vida.

O mestre e seu jardim – O embate de um monge que, ao perder seu jardineiro, não consegue mais trabalhar.

O barco – Em viagem pelo Mar Amarelo, um grande barco de madeira muito bem construído ao longo da História, em poucos dias, aumenta de tamanho e depois de outros diminui, transformando-se em um fenômeno incompreensível.

O encave – Homem sem nome que intencionalmente constrói uma maneira de se abster de seus sentidos como uma nova forma de viver.

O sol e o fim do mundo – Chinês inicia a pé uma travessia através do percurso mais longo da Ásia, rumo ao lugar do crepúsculo, onde deveria ver o Sol descer à Terra.

A cura – Sem suportar o poder de materializar desejos maldosos, Luo Ling procura o monge-mor do templo para se livrar desse mal que, ao contrário do que esperava, a atormenta.

A devolução – Operário demolidor de antigas construções encontra um tesouro e tenta, sem sucesso, devolvê-lo ao seu dono.

A dívida – Um jovem ocasionalmente descobre o talento de esculpir em metais nobres; enriquece, e a família, antes perdida, retorna trazendo inúmeras dificuldades para o seu trabalho.

O achado de Liao Shen – Homem de negócios encontra em sua escrivaninha um objeto com características semelhantes às humanas e tenta escondê-lo de todos que o cercam.

A libertação – Ao tentar ajudar um rapaz, o jovem mestre Chon Tse, vê-se envolvido por acontecimentos iguais ao que tivera no passado; vive episódios de dor e um relato contido em um livro azul o ajuda a transformá-los.

A volta – Monge experiente retorna à aldeia onde fora traído por seus antigos companheiros; deixando-se abandonar, descobre um modo inusitado de resolver a história.

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