O Jogo do Poder entre os Trovadores Ibéricos
Por José D'Assunção BarrosSobre o livro
A Idade Média conheceu um dos mais vigorosos movimentos poético-musicais da história: o trovadorismo.
Os trovadores eram poetas-cantores que percorriam terras e ambientes sociais diversos, compondo e divulgando cantigas que falavam do amor, da vida, mas também da política e da sociedade na qual viviam.
Um dos mais vigorosos movimentos de trovadores da Idade Média foi o dos reinos do ocidente Ibérico, notadamente Portugal e Castela, ambientes nos quais adquiriram especial destaque as chamadas cantigas satíricas.
Para além da mera representação da sociedade, o palco trovadoresco dos paços do Portugal e da Castela ducentistas desempenhava fundamentalmente o papel de um ‘laboratório de experiências sociais’. Um laboratório que também atendia aos desígnios do projeto centralizador dos monarcas ibéricos.
Por ali, o rei podia conhecer toda a sociedade que pretendia governar. Conhecer para controlar. O papel do jogral desclassificado era de suma importância neste laboratório de experiências sociais. Através dele, o monarca tinha acesso a informações que de outra forma lhe seriam ocultadas.
Informações vindas de fora do Paço, mas também de dentro do seu próprio círculo de poder, no qual a bajulação e a hipocrisia por vezes ocultavam do rei dados vitais para corrigir os descaminhos do seu governo, avaliar forças em oposição, compreender demandas e medir descontentamentos.
Em vista disto, os próprios reis ibéricos medievais tornaram-se eles mesmos grandes protetores da poesia trovadoresca, abrindo seus palácios e cortes para saraus poéticos e musicais que depois passaram à história através do seu registro nos diversos cancioneiros medievais.
Este livro aborda o jogo de tensões sociais e políticas que pode ser entrevisto nestas célebres cantigas trovadorescas. Era somente abrindo-se ao escárnio que o monarca podia enxergar a si mesmo.
E foi convocando os poetas marginalizados, ao introduzi-los na função satírica, que ele conseguiu superar os constrangimentos da hierarquia por demais respeitosa.
O “jogral atrevido” era uma “palavra perdida”, um elemento de perturbação necessária, ou a substância estranha contra a qual reagiam os elementos aristocráticos da corte. Era ainda uma espécie de “catalisador” que jogava uns contra os outros, ou os forçava a combinarem-se entre si.
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