O HOSPITAL DOS LAZARENTOS: Os Últimos Dias Do Mestre Vitalino (Conto Bradockiano Livro 7)
Por Iram F. R. BradockSobre o livro
O HOSPITAL DOS LAZARENTOS
( Os últimos dias do mestre Vitalino )
Série: O agreste mal assombrado
Conto Bradockiano
Extraído do E-book de contos
O CEMITÉRIO DAS CRIANÇAS
Caruaru, janeiro de dois mil e dezesseis, meio dia. O sol estava de fritar ovos, após mais uma manhã de trabalho criando ou moldando com cerâmica popular utensílios domésticos para o lar. Luizão trajando um fino “short” verde oliva, sentado bem à vontade no sofá de sua sala, com suas mãos ainda com vestígios de barro, abriu o jornal para se inteirar da política e outras coisas mais.
“Sabia que essa crise iria sanar, era mais uma crise política e institucional, do que econômica, (…) nós brasileiros, somos todos lutadores e trabalhadores. Somos guerreiros!” – pensa Luizão dando um leve sorriso ao ler aquela manchete… Foi quando o seu filho Henrique Barbosa de 12 anos, que viera recentemente morar em sua casa, passara correndo como um foguete…
– Rique! (…) Vai pra onde? (…) Heim mocinho? – indaga seu pai Luizão…
– Vou ali brincar com os menin… – retruca o garoto sem terminar o restante da frase.
“Eita, moleque virado!” – pensa Luizão soltando o jornal de lado e indo atrás de Rique, que sai em disparada sem nem ao menos fechar o portão de sua vazia e seca varanda.
– Oh Henrique! – grita seu pai vestindo a camisa e arrastando seus chinelos de couro. Já na rua atrás do garoto, logo ver o adolescente virar uma esquina e desaparecer entre ruas do Bairro São Francisco nas imediações da Rua Preta.
“Pensa que não sei aonde ele vai!”
Assim que virou mais uma esquina logo avistara… Estava lá… Era uma enorme construção, com três andares… Na calçada, pegando já parte do calçamento uma montanha de areia, quente pelo sol de janeiro daquele ano de dois mil e dezesseis.
Rique havia encontrado seus colegas, era “Mata Rato” garoto mais alto e velho, porém bastante calado. “Ciço do Poico”, que havia se mudado com sua mãe do monte Bom Jesus para o bairro da Rua Preta. E por fim: “Hirochi” garoto de olhos puxados, com uma mexa de cabelo caindo do lado, sempre com ioiô.
Eles pulavam do segundo e terceiro andar e a terra toda aquela terra os absorvia.
Luizão adentrou a construção, subiu correndo as escadas, já no terceiro andar. Era uma imensa sala ainda no tijolo cru com um portal gigantesco sem janela, dando toda a visão lá do alto da montanha de areia no calçamento e ainda mais as telhas das outras casas vizinhas também se avistavam.
– Rique bora pra casa! Eu não deixei você sair. Pra casa, vamos! – disse Luizão interrompendo a brincadeira dos amigos…
– Vou não! O senhor não manda em mim! Viu? – grita Rique com lágrimas nos olhos.
– Não grita com teu pai bicho! – exclama Ciço do “Poico” entrando na discussão.
– Nossa veio sujou! Eu vou é pular e vou pra casa. Morgou veio. – disse Hirochi antes de colocar o seu ioiô no bolso, marcar carreira e saltar ao vento para cair na montanha de areia em um bonito pulo. Sentiu por alguns segundos a liberdade. Caiu, levantou, bateu o short marrom e foi embora batendo as mãos umas nas outras para sair toda aquela terra. Logo foi seguido pelos dois colegas restantes.
– Tchau! Rique – se despede Mata Rato.
– Tchau Henrique! A gente se ver né? – Indaga Ciço do ‘Poico’, também se despedindo…
– É! (…) Tchau! – retruca Rique com sua cabeça baixa…
“Que vergonha! Que raiva!”
– Você nunca me assumiu, não gosta de mim! – disse Rique chorando com a cabeça baixa…
– Você não! Senhor! Eu sou seu pai! Me respeite, seu moleque! – exclama Luizão com o dedo em riste…
– O senhor me abandonou e agora quer ser pai! Eu não aceito! – disse Rique antes de passar o braço nos olhos para conter as lágrimas.
– Eu errei não minto, mas agora quero acertar meu filho. Acredite em mim! Tudo isso que eu venho fazendo é pra lhe educar…
– Minha mãe já me educou! – corta Rique fitando seu pai nos olhos…
– Filho desculpa, vem comigo! – disse Luizão com as mãos apoiadas na cintura…
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