Sobre o livro
Durante toda a vida, ela aprendeu a explicar uma ausência. O pai que não esteve. O espaço vazio à mesa. A cadeira sempre desocupada. A narrativa era simples, quase confortável: ele foi embora porque não soube amar.
Essa explicação sustentou sua forma de existir, de amar, de se afastar antes de ser deixada. Sustentou também o silêncio da mãe, um silêncio aceito como cuidado, como respeito, como proteção.
Até que a morte da mãe abre uma caixa esquecida. E dentro dela, um papel burocrático demais para o que revela.
O pai não foi embora. Ele morreu antes de ela nascer.
A descoberta não traz alívio. Traz vertigem. Porque, de repente, toda a dor cuidadosamente organizada perde o endereço. Se não houve abandono, o que houve? E quem precisou dessa mentira para continuar vivendo?
Este livro não é sobre um homem que morreu. É sobre uma ausência que foi inventada para tornar a vida possível. É sobre as histórias que contamos para sobreviver, os acordos silenciosos entre mães e filhas, e a dificuldade brutal de encarar verdades que não nos salvam, apenas nos transformam.
Com uma escrita íntima, precisa e profundamente sensível, a autora constrói uma narrativa sobre memória, luto, maternidade e identidade, mostrando que algumas dores só começam a cicatrizar quando paramos de explicá-las.
Porque, às vezes, amar também é aprender a sustentar verdades que não oferecem redenção, apenas realidade.
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