O Cristo Rosa: BIOGRAFIA NÃO–AUTORIZADA DA MENINA JESUS

Por Silvio Piresh

Sobre o livro

Ao título do seu romance O Cristo Rosa (São Paulo, Editora do autor, 2002), Silvio

Piresh acrescenta outros dizeres que ajudam a decifrar sua mensagem. Além da bela

capa com um rosto colorido de mulher sensual, temos o subtítulo: “Biografia não-autorizada

da Menina Jesus”. E no frontispício da obra: “Pegaram a mulher pra Cristo”.

Estranha ficção, no meio da qual brotam ideias. Longe estamos de Zola e seus parceiros,

comprometidos com o estudo monográfico dos fatos. Mas de um texto

reflexivo, a que não faltam os ingredientes sedutores da trama bem construída e da

fantasia liberta. Não é que nos defrontamos com a metamorfose do Cristo numa

simples mulher crucificada? São longos os caminhos para chegar àquele ponto. Diremos que assim se faz o texto reflexivo, na justa combinação de literatura e entretenimento. O prazer não

vem apenas da trama bem articulada ou do caso bem relatado. Provém do teor ideativo, filosófico do relato. A leitura tanto pode aguçar os instintos, como ativar a sede do saber. Na beleza da

obra realizada devem confluir os prazeres do corpo e do espírito. Sabemos que a narrativa

singela resume-se no despertar do manancial de Eros e no engenho de ajustar

os episódios da trama. Já a narrativa superior vai à fonte do saber que jorra do texto

iluminando-o com o passado do gênero, a jogar o fulgor da memória sobre as cambalhotas

da imaginação. Sonhos ativados pelas lembranças. Assim, o texto de cunho reflexivo acende

a curiosidade do leitor em muitas dimensões, apontando-lhe caminhos e associações.

O Cristo Rosa põe em questão a natureza de todos os mitos. Brinca de invertê-los,

acrescentando a cada mistério outro mistério. Mais do que isso: o romance traz o

poder do símbolo, com toda a sua carga ideológica de crítica histórica e social. A

Igreja Católica é posta no tribunal. O leitor diverte-se e se comove. São hilariantes as citações em latim. Nasce e morre um novo Cristo, relator da crucificação da mulher na civilização cristã. Após dois milênios de torpor, crueldade e omissão.

O Cristo Rosa – Resenha de Fábio Lucas

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