O conceito de prudência em Aristóteles

Por Mauro Godoy Prudente

Sobre o livro

O objetivo principal deste livro consiste em colocar em destaque o conceito aristotélico de Prudência (φρόνεσις/phrónesis) e mostrar os diversos modos em que é aplicado na Ética, na Política e no Direito.

Todas as escolas éticas que seguiram o legado do Estagirita refletiram sobre o papel da Prudência em suas doutrinas.

Na República, contrariando a tradição sapiencial grega, que via na prudência o guia racional para a ação humana, Platão sustenta que a razão (lógos), guiada pela sophía (sapiência) é a parte da alma que tem a responsabilidade de desejar o fim supremo que guia a ação humana: a busca da Felicidade do agente .

As demais partes da alma – irascível e apetitiva – também são fontes de desejo, mas somente a razão é capaz de identificar o bem supremo para o ser humano.

Esse bem supremo, seguindo a tradição sapiencial grega, é a Eudaimonía. Em Platão, ser eudaímon consiste em possuir um caráter virtuoso , que permite o ‘bem viver’ (eu zen) e ‘bem agir’ (eu prattein).

A felicidade individual somente ocorre quando a alma do agente, sob o controle da razão, está harmoniosamente ordenada.

A felicidade pública (política), por sua vez, somente ocorre quando a cidade (pólis) está corretamente ordenada, com cada classe social – trabalhadores, guerreiros, filósofos – cumprindo sua função própria, sob o comando dos filósofos.

Aristóteles, após seguir por longo tempo a doutrina da alma de Platão, que privilegiava o papel da razão como a faculdade que tem a tarefa de estabelecer o verdadeiro bem que deve ser objeto de desejo da alma, rompe com seu mestre em seu tratado com o nome de Grande Ética (Magna Moralia).

Nele, o Estagirita, pela primeira vez ao longo de suas reflexões éticas, passa a negar que a razão seja uma faculdade com o poder de desejar fins para a ação humana. Segundo Aristóteles, a ação (práxis) humana é teleológica e tem origem no desejo.

Mais tarde, ao escrever seu tratado de Psicologia, com o nome de Sobre a Alma (De Anima), Aristóteles apresenta as razões que o levaram a divergir da teoria racionalista do desejo elaborada por Platão na República.

Segundo o Estagirita, Platão estava equivocado ao transformar a razão numa faculdade desejante.

A razão teórica (epistéme) não possui nenhuma ligação com a esfera da conduta humana, pois não se manifesta diante daqueles objetos que devem ser buscados ou evitados, enquanto o movimento do agente sempre diz respeito a algo que deve ser buscado como um bem ou evitado como um mal .

É sempre o desejo que guia o agente na busca ou na evitação de algo. Cabe à Prudência (razão prática) estabelecer as condições pelas quais o fim estabelecido pelo desejo seja atingido . Esse processo racional de adequação dos meios ao fim buscado, Aristóteles denomina de deliberação (bouléusis) .

O livro examina a relação que existe entre o desejo e a prudência, destacando como os caracteres humanos são formados a partir da relação entre esse dois componentes fundamentais da ação humana.

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