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Nós vimos a cobra fumar: Diário de um jovem tenente brasileiro na Itália durante a II Guerra Mundial
Por Diogo TavaresSobre o livro
O inverno de 1944/45 no Norte da Itália foi um dos mais rigorosos que se tem notícia.
O jovem tenente brasileiro Italo Diogo Tavares, então com 20 anos, passou a maior parte daqueles meses na mais avançada posição dos Aliados na chamada Linha Gótica, na elevação dominada pela Torre di Nerone, sob frio intenso, neve e cerrado bombardeio da artilharia do exército nazista alemão.
O único contato com a retaguarda aliada era feito por uma estreita passagem. A retirada de feridos e o envio de mantimentos só podiam ocorrer à noite, já que os inimigos, instalados nos montes Soprassasso e Belvedere, podiam atingi-los facilmente das posições que dominavam.
Para se proteger do frio e buscar reduzir o número de baixas pelos disparos de canhões e morteiros, cada integrante do pelotão comandado por Italo ocupava um abrigo individual, na verdade um buraco, ou fox hole, onde permanecia a maior parte do tempo.
Para matar a fome, a única opção era a chamada “ração fria”. Já a situação de higiene era péssima, não havendo possibilidade de banho, o que fez com que o local ficasse conhecido como “Terra dos Piolhos”.
Foi nesta posição que o tenente Italo escreveu algumas das páginas do seu diário de guerra, como o trecho a seguir: “Já perdi a conta dos dias que estamos na linha de frente. O Inverno veio e foi-se sem que nós saíssemos dos nossos buracos. Para combater o frio, recebemos capas de pele.
Pois bem, estas capas não vieram certas. Só recebemos 100, quando a companhia tem 200 homens. Disseram eles que havia falta das mesmas.
Quem passasse por Pistoia e por Porreta Terme veria todos aqueles que trabalham nos QG, que têm um belo fogo para se escaldar de dia e de noite, que têm boas camas para dormir, envergando lindas capas de peles brancas. Por aí calculem como devemos estar nós da linha de frente.
No Inverno muito sofremos. Porém a sina do homem é sofrer mesmo. A neve aqui subia a uma altura de cerca de um metro. O frio era intenso. A alimentação nem sempre podia ser quente. Aliás, quase sempre era ração fria. O frio a tudo penetrava. Foi uma vitória.
Todos podem se considerar heróis, pois deram à pátria, senão a vida, a saúde”.
O diário do tenente Italo permaneceu inédito por 60 anos, até que o filho dele, Eduardo, teve acesso ao manuscrito original, divulgou através de um blog e organizou a primeira edição do livro, que em 2014 ganhou uma segunda edição.
O texto deste diário está publicado na íntegra neste livro, que ganha aqui a sua primeira versão em e-book.
É o relato sincero de um jovem tenente brasileiro sobre a crueldade da guerra, a superação e a revolta com a existência de dois tipos de militares: o “saco A”, que sofria na frente de batalha, e o “saco B”, que acompanhava a guerra em belos mapas pregados na parede.
Não faltam também relatos sobre chacinas, erros desastrosos e até contrabando de obras de artes, pois a guerra, isto é certo, faz aflorar o melhor e o pior nos homens.
É um retrato sem retoques sobre a história da participação do Brasil na II Guerra Mundial a partir do ponto de vista de um personagem real.
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