Nós, abissais

Por Eduardo Pacheco Santos

Sobre o livro

“Somos velhas, a história e eu, mas ainda posso dizê-la, porque ainda estamos uma na outra. Esse corpo cansado, de couro puído, curtido por marés após marés, bem guardou aquela manhã. Guarda ainda, dentro, cada palavra que se meteu no repouso dos nossos remos, entre um e outro de seus mergulhos.

Sob meu pai e eu, o Abismo ondulava como nunca se havia testemunhado.

Abismo era o rio. Um rio imenso como uma noite. Oceânico. Quando alguém prendia âncora à margem de cá, o fio do horizonte lhe escondia a margem de lá.

Sobre a pele do Abismo, havia quem se perdesse e muito se demorasse sem avistar margem alguma. Mas, a despeito da imensidão, pouco se confundia esse rio com os mares. Sem a generosidade pulsante daqueles, o Abismo não nos devolvia suas águas.

Não se dobrava diante de nós para reencontros. Não vinha a nós. Incessantemente, de longe para longe, o Abismo corria indiferente. Assim era. Contam que sempre foi. E ainda é.

Sobre essa correnteza, é bem verdade que revelo menos ao dizer rio do que revelo ao dizer Abismo.”

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