Noite grande

Por Luis Gustavo Cardoso

Sobre o livro

Do verso renasce a pena com que escreve o autor seu texto. Num tênue jogo de chiaroscuro, a cenografia ora ultrapassa os limites da poesia e engendra a prosa contínua, desvelada em caminhada.

Assim, reflete-se a acidez de seus retratos por entre rosas claras: um encontro perdido em oração e um amor protocolar entre missivas poupado. – E quão bela não fora a espessura da bunda nos olhos da cabra!

Olhos como ossos, secos e frios em criatura, der Golem, a contrastar com o deveras fluido suor do espanhol da Calle de Los Suspiros ou do latim de Virgílio, ou, ainda, com a seiva-sangue latente dos girassóis à beira do Mar Negro.

Um constante desejo entoado que alumia e inscreve no papel a memória infinita de tenros pés de mulher descalços, despojados como a nudez de um livro em branco.

Entre um sonho que se tece e se desfaz, candidamente, antevemos a frugalidade matinal da vaca e o efêmero dos insetos, o recuerdo dos cartuns e do carnaval, a ópera na qual os castrati de nossa terra dão nome aos judas e uma culinária epistemológica da receita de bolo pós-moderna.

Nesse ofício candente e diverso, percebe-se das cordas do violão o acorde traçado solitário que marca o diapasão em palavras abertas, dissecadas à luz de um rimar instransponível, a despedir-se dos mortos da infância que o esperam na estação.

E, de súbito, num antigo canto de pássaro vertido no espelho, Alice redescobre grande a face do nosso poeta através das veredas da linguagem onde o verbo delira, noite adentro.

Júlio Bonatti

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