Sobre o livro
A sabedoria no olhar de uma criança
Allison Leão*
Certa vez, ao se referir a uma biblioteca de livros infantis e comparar o colecionismo dessa natureza com a bibliofilia (digamos) adulta, o pensador alemão Walter Benjamin notou que, diferente da solidão, avareza, amargura e outros traços sombrios que, em geral, caracterizariam esta, o colecionador e a coleção de livros infantis seriam algo semelhante aos seus objetos: álacres e leves.
Segundo Benjamin, aquele que quisesse apreciar uma coleção dessa ordem deveria se manter “fiel à alegria que experimentou quando criança, ao ler esses livros”.
O curioso é que, como todas as bibliotecas, aquela em questão também pertencia a um adulto; alguém que se tornara homem sem contudo perder certa felicidade infantil que há em três gestos: ouvir histórias, colecionar coisas e ter brinquedos.
No tempo de eu menino, livro de Odenildo Sena que o leitor agora tem em mãos, é um convite que o autor nos faz para um reencontro com esse tipo de felicidade.
As crônicas que compõem o volume nos contam histórias de sua infância vivida no bairro de São Raimundo – não o de hoje, mas um bairro de um tipo como atualmente quase já não existe. Embora desaparecido no tempo, o bairro retorna nas cores da memória, com um pouco de nostalgia e muito lirismo.
Sem falsetes de literatices, uma beleza que as crônicas de Odenildo nos trazem está na simplicidade de seu contar, como uma conversa entre quem parou para rememorar algo e outrem que parou para ouvir.
Talvez aí esteja outra beleza, mais inesperada: entre a prosa de quem conta e ouvido de quem escuta, está a pausa em um mundo acelerado que nos impõe a surdez e a indiferença.
Em tempo de zumbis vidrados em tablets e smartfones, o livro de Odenildo – seja porque é um livro, seja pelo seu conteúdo – nos lembra como era bom quando nos ouvíamos.
Naquele tempo, os cinemas eram como segundas casas; os jornais davam notícias; havia quintais; as crianças percorriam e conheciam os espaços da cidade; até as mães eram outras; até as máquinas tinham nomes próprios – ou, como alguém já disse, “até os automóveis davam bom dia”.
As crônicas, em geral, têm o poder de registrar um tempo – tempo que ficará mais e mais distante de um agora. Esse registro, muitas vezes, guarda elementos ou vestígios daquilo que um dia foi a realidade.
Entretanto, a voz que comunica a crônica está frequentemente marcada pelo afeto e pela invenção que a memória opera antes do esquecimento.
Aqueles que quiserem ler as crônicas de Odenildo objetivamente e conhecer traços do que, de fato, foi aquele espaço-tempo, não ficarão insatisfeitos, pois certamente tem-se aqui um registro valioso do ponto de vista histórico.
Mas os que tiverem empatia pela história do afeto do autor e de sua infância terão outra experiência: poderão adentrar nessa pequena biblioteca da memória que ora o autor nos revela, uma coleção de histórias que (por que não?) também é seu mundo de brinquedos.
Vamos entrar, pois, olhando e ouvindo com a sabedoria que há no olhar e no ouvir de uma criança.
(*) Doutor em Literatura Brasileira e professor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA)
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