Sobre o livro
O Prof. Dr. Jair Tadeu da Fonseca, da Universidade Federal de Santa Catarina, assim avalia a presente edição de Cruz e Sousa, o mais instigante poeta negro da literatura em Língua Portuguesa:
“Não! Não! Não!
Não transporás os pórticos milenários da vasta edificação do Mundo, porque atrás de ti e adiante de ti não sei quantas gerações foram acumulando, acumulando, pedra sobre pedra, pedra sobre pedra, que para aí estás agora o verdadeiro emparedado de uma raça.” Um dos muitos textos impressionantes de Cruz e Sousa, “Emparedado”, junto aos outros reunidos neste livro, revela aspectos fundamentais de sua obra, ainda não suficientemente notados e compreendidos.
Como toda produção poética capaz de sobreviver à época de sua criação e divulgação inicial, sem nela ficar emparedada, o que os leitores têm em mãos é a prova de que o poeta escreveu para seu tempo e o nosso – este em que os estudos literários se mesclam aos
estudos culturais, e em que não se resolveram as graves questões já enfrentadas por seu trabalho.
Durante muito tempo, a obra de Cruz e Sousa foi “emparedada” no simbolismo, sendo ela sua maior expressão no Brasil, e uma de suas melhores criações no mundo inteiro, segundo o crítico e sociólogo francês Roger Bastide.
Além disso, em grande medida, o simbolismo foi visto erroneamente como um “estilo de época” datado e, logo, superado, tanto por sua linguagem e seus códigos serem “de época” quanto por seu esteticismo ter sido considerado como abstencionista ou “alienado” social e politicamente.
Nada mais falso, como se comprova pela releitura que nosso tempo pode fazer de poemas e outros textos, em prosa, que constam desta antologia.
Isto porque no poeta brasileiro temos um entrelaçamento radical das célebres categorias poéticas de Ezra Pound: a fanopeia (jogo de imagens verbais), a melopeia (a musicalidade) e a logopeia (“a dança do intelecto entre as palavras”, segundo o próprio Pound).
O rigor e o apuro formais dos poemas e outros textos de Cruz e Sousa são inseparáveis do trato que deu à sua condição afro-brasileira, como dizemos de uns tempos para cá.
Basta atentarmos, por exemplo, ao intenso cromatismo e trabalhada sonoridade da sinestesia simbolista de sua poesia, no apelo aos sentidos físicos mesclados para a criação de sentidos poéticos mais amplos, inclusive numa dimensão de militância antirracista e de crítica radical da sociedade.
Evidentemente, não se pode reduzir o significado da obra do poeta catarinense a uma perspectiva fechada, mas considerar que o fechamento paradoxalmente cria sua expansão, pois o que este livro revela é a pioneira contribuição de Cruz e Sousa à negritude, ainda antes de Leopold Senghor, poeta e político senegalês, criar este conceito, décadas depois.
As contradições, os embates e o dilaceramento que percebemos na escrita-vida do poeta catarinense também antecipam muito da violência verbal do escritor e militante martinicano Frantz Fanon, a qual não é prenda do ódio, mas dádiva de amor e libertação.
Assim, esta antologia é capaz de revelar as contemporaneidades e as expansibilidades do que estaria emparedado, porque, como defende o poeta, se há paredes que aprisionam, a demandar demolição e liberdade, outras há que são de sonhos.
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